Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007

Leis de Murphy

Chegado o final do semestre de Inverno, regressei a Portugal por duas semanas, levando como companhia o meu mais-que-tudo, o Matt. Estava naturalmente preocupada e receosa, pois temia encontrar o Joaquim enquanto passeava na minha cidade natal. Por outro lado, tinha uma curiosidade imensa em saber qual seria a sua reacção e até mesmo a minha. Um misto de medo e adrenalina revolvia dentro de mim, mas decidi ignorar tais sensações e concentrar-me apenas nos 15 dias que se seguiam e nos múltiplos passeios turísticos que ia proporcionar ao Matt.

 

Chegados a Portugal, fomos de imediato recebidos pelos meus pais que ficaram visivelmente maravilhados com a aparência e educação do Matt. Jamais haviam sido confrontados com tal cordialidade, sem com isto querer dizer que o Joaquim não o era de sobra. Apenas a forma de o ser era diferente. O Matt era mais frio, mais adulto e demonstrava uma segurança que o Joaquim jamais conseguira transmitir. Talvez seja essa a característica em que difere o homem do rapaz/jovem adolescente. A segurança, a estabilidade, a dúvida que inclina mais para a certeza e a sensatez. A sensatez de saber que acções têm consequências por vezes devastadoras, ao darmos um passo em falso.

 

Perante tal atitude, o Matt recebeu do meu pai toda a confiança e atenção. Foi-nos até permitido levar o seu carro nas nossas excursões por Lisboa e seus arredores. Tal acontecimento proporcionou-nos mais que duas ou três boas gargalhadas, pois para quem estava habituado a conduzir do lado direito, o Matt quase nos colocou em verdadeiro perigo umas quantas vezes. No entanto, ao seu lado revivi momentos, cheiros, lugares, reencontrei-me. Reencontrei o meu cantinho e criei novas e belas recordações dos sitios já visitados. Ele tinha esse poder, o de me fazer renovar experiências, tornando-as ainda mais doces que outrora.

 

Como boémios que eramos, todas as noites saímos a um local diferente de forma a que ele pudesse conhecer os bares da zona e que eu pudesse relembrar-me um pouco do que era Lisboa à noite. Bairro Alto, Santos e até Alfama, foram alguns dos sitios pelos quais vagueámos durante a noite. Apesar do bom fado que se fazia sempre ouvir em Alfama, o Bairro Alto foi o eleito pelo meu turista favorito e foi onde estivemos mais tempo, acompanhados, por vezes, dos poucos amigos que me restaram e também do meu primo João. Sei bem que este não via com bons olhos a minha relação, não por ser o Matt, mas por não ser o Joaquim. Não podia deixar de o compreender, mas discordava dele com todas as forças. Havia-me convencido de que o Joaquim era apenas uma sombra do passado, um precalço, uma história entre tantas outras.

 

Já há largos anos que passava férias em Sines, na altura do verão. Era um sítio calmo, acolhedor e quente. O alentejo era uma região muito amada por mim e meus pais, apreciavamos a calma e forma de ser meio pachorrenta dos habitantes daquelas terras. Por todas essas boas recordações que guardava daquele local, decidi passar lá uns dias com o Matt. Voltariamos mesmo a tempo de ir assistir a um tributo a Frank Zappa e Led Zepellin, dois dos artistas mais adorados pelo meu britânico. Era a oportunidade perfeita para sentirmos o ambiente londrino, do qual já ambos sentiamos falta, especialmente por todos os amigos que tinhamos lá. Eu era uma estrangeira no meu próprio país, algo que o Matt estranhou, pois julgava que encontrariamos a mesma legião de amigos que tinha em terras inglesas. Mal eu sabia que esse concerto iria deixar uma marca negativa em mim, no Matt e na nossa relação. Um só acontecimento, capaz de deitar por terra tudo o que haviamos construído a custo nos últimos meses.

 

Em Sines tudo foi uma perfeição. Os nossos passeios pelas praias, os dias abraçados a ouvir o mar. Acordar, sentindo os seus longos dedos percorrendo-me todo o corpo, em jeito de meiguice. O beijo que me dava todos os dias, ao ver-me abrir os olhos. As noites passadas na praia, amando-nos como nunca o haviamos feito. Em Sines pensei em ficar com ele. Para sempre ou até dali a uns dias, não importava. Importava sentir o seu aroma, a textura da sua pele, o sabor dos seus ternos lábios, em todos os minutos, horas do meu dia. Voltámos como se de uma lua de mel.

 

Arrumámos as malas, pois partiriamos no dia seguinte pela tarde. Vesti uma roupa bem londrina e lá fui de mãos dadas, enfrentar a noite, que estava especialmente fria, para ir ver o concerto. Assim que lá chegámos, reparamos que tudo naquele bar nos agradava, pois era sinónimo de Arte, nas suas várias formas. Ali podiamos conjugar a boémia com a cultura, mesmo ao estilo de Londres. Ficámos ambos bastante entusiasmados, mas ninguém diria que ao virar a cara, todo aquele entusiasmo cairia por terra. Enquanto passavamos os olhos por umas obras, ao virar-me, dei de caras com o Joaquim. Senti o coração disparar, como se me fosse sair pela boca. Estava acompanhado por uma rapariga bem bonita por sinal. Veio cumprimentar-nos, atitude que me fez gelar, embora tentasse manter-me o mais inabalável possível. Apresentei-lhe o Matt como meu namorado, estatuto que ele certamente possuía. Felizmente, alguns amigos dele chegaram e pudemos ficar novamente sós, eu e o Matt. Estava bastante abananada com tal encontro, coisa que o Matt percebeu. Apenas me disse que tudo o que estava a sentir era normal, por toda a distância, e que esperava apenas era que isso não me fizesse mudar de ideias, beijando-me ternamente de seguida.

 

Passei o resto da noite e, consequentemente, o concerto, tentando lidar com todo aquele mau estar. Julguei que após todo este tempo, o Joaquim me fosse indiferente, mas não o era. Em absoluto. No final do concerto, dirigi-me aos dois para me despedir. Jamais perderia a educação e o orgulho que tinha em ser uma mulher forte e decidida. Voltei para casa e, ao deitar-me ao lado do meu amado, senti-me diferente do que havia sentido dias antes, em Sines....

 

 

 

 

 

 

Ass: Rosa

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Terça-feira, 28 de Agosto de 2007

Coincidência

        A vida corria-me de feição. A minha relação com a Mafalda estava completamente estável e os condicionamentos que outrora a memória da Rosa trouxera já haviam deixado de existir. Finalmente tinha paz de espírito, o que me permitia que me entregasse de uma forma mais despreocupada à minha companheira. Contudo, sentia-me diferente. A minha entrega já não era a de outros tempos, possivelmente por resquícios subconscientes da minha má experiência anterior. Era como que uma cicatriz sentimental imperfeitamente sarada. Apesar disso a Mafalda não parecia queixar-se, talvez porque não reparava ou até mesmo por nunca ter tido uma experiência igual à que teve comigo. Esta angústia que me assolava foi perdendo importância com o decorrer do tempo já que fui aprendendo a amar de outra forma. Impunha quase que cláusulas de salvaguarda do meu ser, de forma a que, se o pior se avizinhasse, eu saísse o mais impune possível. Por outro lado já há muito que não tinha notícias da Rosa. Pelos vistos a minha carta tinha alcançado o objectivo pretendido, a distância. Por fim tinha-a longe da vista e do coração.

           

 

 

Já havia conhecido os pais da Mafalda. Eram pessoas simples que haviam deixado Braga em busca de uma nova vida, pois já não aguentavam o tédio de uma pequena cidade. Desenvolvi uma grande amizade por ambos, especialmente pelo seu pai que passou a ser meu companheiro de bola, com o qual acompanhava os jogos do Benfica. A sua mãe por seu turno era uma cozinheira exímia. Isso conjugado com a amabilidade de ambos, característica das pessoas do norte, deixava-me sobejamente contente. Sabia que dali também não haveriam represálias como outras que se passaram.

           

 

 

A Mafalda e eu buscávamos incessantemente oportunidades para ouvir boa música, pelo que muitas vezes frequentávamos o bairro alto. Por entre bares alternativos e com música ao vivo, lá íamos vivendo os nossos momentos a dois. Numa dessas noites menos frias de Fevereiro, deixámos o conforto das nossas casas para ir assistir a um concerto de rock. Na altura ainda se ouvia muito Frank Zappa e Led Zepellin, sendo que os dois constituíam duas sonoridades que nos eram bastante aprazíveis e, por isso, nos conseguiam afastar do nosso cantinho e enfrentar a noite. Nessa noite iríamos a um bar que era conhecido por ter exposições de arte contemporânea e por fazer cafés-concerto de bandas “mais alternativas”. O concerto começava às 23h, pelo que decidi que seria boa ideia deambular pelo bairro alto de forma a matar o tempo. Fomos bebendo o nosso copo aqui e ali, encontrando as caras do costume perdendo os cinco minutos cordiais da praxe. Ao volver uma das esquinas que dava acesso à rua do bar em questão, não quis acreditar nos meus olhos. O meu batimento cardíaco acelerou exponencialmente e ir ao bar deixou de me parecer assim tão boa ideia. À última da hora tentei convencer a Mafalda que afinal assistir ao concerto não seria assim muito boa ideia, que provavelmente conseguiríamos arranjar uma alternativa bem mais interessante. Não consegui demover a Mafalda que insistiu que entrássemos. Respirei fundo e avançámos. Estava a escassos metros da Rosa e um rapaz qualquer que não parecia ser português. Sentia o meu coração pulsar freneticamente e uma descarga de adrenalina. A Rosa virou-se e reparei nos seus olhos nos meus. Peguei na mão da Mafalda e avancei. Uma coisa era não ligar nenhuma à Rosa estando ela distante, mas agora ela estava bem perto, e o mínimo que eu podia fazer era dar as boas noites e apresentar a minha companhia. Assim o fiz, a atrapalhação da Rosa era latente. Não estaria certamente à espera que eu tivesse aquele tipo de reacção após as frias palavras que lhe havia endereçado a última vez que comunicámos. Apresentei a Mafalda como minha namorada, afinal de contas já o éramos há algum tempo. Ela apresentou-nos o Matthew como seu namorado. Estavam ambos de férias em Portugal e tinham aproveitado essa oportunidade para conhecerem também as tendências artísticas contemporâneas.

 

 

 

A Rosa estava visivelmente mudada, o seu ar ingénuo havia-se alterado. Era agora uma mulher segura de si própria, dona do seu nariz, ou pelo menos aparentava sê-lo. A Forma como se vestia também estava muito diferente, mas isso eram óbvias influências de exposição a uma cultura tão diferente da sua original. Os seus olhos já não tinham o brilho que me havia cativado anos antes e isso talvez reflectisse o seu estado de alma, não sei, aliás não queria saber. Por sorte um grupo de conhecidos meus e da Mafalda também tinha resolvido estar presente naquela noite, naquele bar, pelo que nos chamaram para junto deles. Aproveitei a deixa para abandonar o casalinho internacional pois já havia cumprido o propósito daquela conversa. Durante o concerto todo não consegui deixar de olhar esporadicamente para a Rosa. Fiz um esforço por não me demorar muito nessas incursões visuais, uma vez que tanto do lado dela como do da Mafalda tal não seria levado de ânimo leve e geraria algum desconforto.

 

 

 

O concerto terminou e nós ficámos ainda no bar discutindo algo de tal importância que hoje não me recordo, ou seja, as futilidades habituais. Desta vez a bola havia passado para o outro lado do court. Assim sendo, foi o turno da Rosa se despedir. Com toda a naturalidade possível despedi-me, também, dando um vigoroso aperto de mão a Matthew de forma a dar a entender que a situação não tinha sido de todo desconfortável. Momentos mais tarde, a Mafalda quis saber mais sobre a Rosa, pois finalmente havia-a conhecido. Pedi-lhe que tal conversa ficasse para mais tarde. Nessa noite já havia tido uma dose de Rosa superior àquela que a distância de meses me havia acostumado.

 

 

Fui deixar a Mafalda a casa. No retorno à minha, enquanto fumava o meu cigarro e era presenteado com uns leves choviscos, fui-me recordando de outros tempos, na altura já um tanto ou quanto difusos, distantes, quase que indiferentes, ainda assim não deixei de ponderar o sentido dos mesmos. Uma boa noite dormida poria tudo no sítio certo, esperava eu.


 


 

Ass: Quim

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Terça-feira, 15 de Maio de 2007

Aperto

Ainda guardo na memória o dia em que tive a brilhante ideia de pedir a mão da Rosa em casamento ao seu pai. Provavelmente teria feito mais sentido casar num impulso sem informarmos ninguém. Contudo, não foi essa a nossa decisão, não fosse o pai dela criar ainda maiores entraves à nossa relação. Sem saberem porquê, tanto os meus pais como os da Rosa foram convidados para jantar na casa dos primos desta. Durante a recepção e o jantar divertia-me sondando as caras dos nossos progenitores, em busca das respostas, sem saberem eles que a resposta seria a mais óbvia, apesar de surpreendente.

 

 

O jantar mais não foi que uma amena tertúlia, apesar de sentir um nervosismo natural de situações como a que descrevo. Finda a refeição achei que era o momento de esclarecer todos sobre o propósito daquela reunião. Ao levantar-me, olhei para a Rosa para que ela também o fizesse, olhando de seguida os meus pais, e só de seguida os dela. Tanto os meus como os da Rosa estavam incrédulos, finalmente se tinham apercebido do que estava prestes a acontecer. Dei a mão à Rosa e após ter respirado fundo comecei a falar. Expliquei-lhes que a nossa relação já tinha avançado muito e que apesar da nossa jovialidade estávamos certos da nossa decisão. Queríamos casar, queríamos ser felizes juntos e queríamos, por fim, que todos aqueles presentes na sala partilhassem da nossa felicidade.

 

 

Levantou-se logo um burburinho, o possível dado o diminuto grupo reunido. Face ao silêncio do pai da Rosa temi o pior, pelo que tentei manter o meu semblante inalterado. Quando finalmente decidiu dizer de sua justiça, eu não quis acreditar nas palavras por ele proferidas. Informou-me que tinha planos académicos para a Rosa. Desejava que ela fosse estudar belas artes para o estrangeiro. Só então percebi que a sua ideia tinha sido a de permitir o namoro, nunca esperando que se fosse desenvolver para algo mais, pois estaria, à partida, condenado com a saída da Rosa do país.

 

 

Neste momento, a minha expressão já há muito deixara de ser a de pajem que traz boas novas. Todo o meu mundo desmoronara-se ,como se de um castelo de cartas se tratasse, nestes breves segundos. Tinha sido ludibriado pelo pai da Rosa, tinha perseguido um amor à partida condenado. Apertei a mão da Rosa como que dizendo "não te quero deixar ir", quero que fiques aqui comigo. Este aperto não fora retribuído, pelo que olhei para ela. Estava atónita, e quando se apercebeu do que o pai tinha dito sentiu-se mal e desmaiou. Tive somente tempo de impedir que a sua cabeça embatesse com violência no chão. A sala estava sobressaltada com toda a tragédia grega que nela se encenava. Peguei na Rosa e levei-a para o quarto do João.

 

 

Quando recuperou os sentidos, estava visivelmente combalida, reconfortei-a dizendo que estaríamos sempre juntos, não tendo ainda noção da tarefa hercúlea que se nos apresentava. Pelo que consegui apurar, a decisão do seu pai era irrecorrível, e além disso tinha imposto um prazo de validade à nossa relação. Ainda assim prometi à Rosa que nada nos aconteceria, que tudo manter-se-ia na mesma.


 


 


 

Ass: Quim

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Segunda-feira, 7 de Maio de 2007

Uma verdadeira surpresa

O meu namoro com o Joaquim teve, sem dúvida, dois momentos bastante decisivos. O jantar de apresentação e oficialização em casa dos meus pais e o pedido de casamento. Depois daquela tarde romântica em Sintra, que culminou com o nosso noivado, era necessário reunir as familias e declarar, perante todos, a nossa vontade. Ambos estavamos certos da nossa decisão, mas precisávamos de aguardar um pouco mais e preparar as nossas familias para este acontecimento. Afinal, eu tinha 17 anos e o Joaquim, 19. Para a altura não era invulgar casar tão cedo, mas novos valores começavam a fazer parte do dia-a-dia das pessoas, tinham passado 6 anos desde a revolução e muita coisa havia mudado.

 

Durante várias semanas, mantivemos o nosso noivado em segredo para os nossos pais, apenas os meus tios e o primo João sabiam de toda a história. Claro que estes nos deram todo o seu apoio e sugeriram até que o jantar fosse em casa deles, por representar território absolutamente neutro. Outra vantagem era o facto de os meus tios conhecerem os pais do Joaquim e os meus. Assim, gerar-se-ia um clima mais intímo, leve. Ambos concordámos com esta ideia e acordámos com os meus tios que o jantar seria do presente dia a duas semanas. Assim teriamos tempo de preparar ambas as familias.

 

Naquela noite mal dormi, pensando como haveria de dar a boa nova aos meus pais. Não era uma tarefa fácil e sabendo como avesso era o meu pai às surpresas, tinha algum receio que aquela fosse provocar algum descontentamento. Sabia perfeitamente que ele não estava preparado para me ver sair tão cedo. Mal eu sabia que ele iria aceitar, mas impondo as suas condições.

 

No dito dia, ali estavamos nós. Três familias reunidas, numa amena conversa, disfrutando de um delicioso jantar, que havia sido cozinhado pela minha tia. Na nossa familia todas tinhamos uma habilidade especial para a cozinha, passada de geração em geração. Um dia seria eu a servir um fabuloso repasto, estava ansiosa por isso e por ter sempre do meu lado o meu fiel amor. Já nos imaginava na nossa casa, partilhando uma vida juntos. Diz a sabedoria popular que “quanto mais alto o sonho, maior a queda”. Estava prestes a ver tudo cair por terra.

 

Após a sobremesa, o Joaquim agarrou na minha mão e ergueu-se perante todos. Dirigiu-se ao meu pai de forma educada e pediu-lhe a minha mão em casamento. Soltaram-se algumas exclamações de surpresa, vindas das nossas mães e um esboçar de um belo sorriso na cara do pai do Joaquim, bem como nas caras dos meus tios e primo. Apenas o meu pai se mantinha impávido e sereno, olhando o Joaquim olhos nos olhos. Perante o seu silêncio, todos o olharam atentos, já sem sorrisos. O Joaquim apertou-me a mão, em sinal de aflição, sem saber o que fazer ou dizer. Até que ouvimos de sua justiça e a sua resposta deixou-nos a todos atónitos. Disse ao Joaquim que ainda era cedo para tal passo e que só permitiria que nos casássemos após eu completar os 21 anos. Disse ter planos para o meu futuro e que pretendia que eu estudasse Belas Artes em Inglaterra por três anos. Senti-me desfalecer e pouco recordo do resto dessa noite. Lembro-me apenas de ver o Joaquim à minha cabeceira, segurando-me a mão e beijando-me a face, dizendo que tudo se iria resolver. Que esperaria por mim e que o seu amor duraria para todo o sempre.

 

Pergunto-me se hoje em dia me teria feito tais promessas tolas....


Ass: Rosa

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Segunda-feira, 30 de Abril de 2007

Momento

Existem três momentos que guardo na minha memória como dos mais importantes e, mais que isso, emotivos. Sem querer colocá-los por qualquer ordem hierárquica, conto-os cronologicamente. O primeiro momento especial foi o início da minha relação com a Rosa. Ainda hoje recordo cheiros, cores, ecos de outros tempos em que tudo era mais fácil. O segundo momento, que ao fim ao cabo acaba por ser um culminar de momentos, foi o do pedido de casamento na Serra de Sintra, éramos sós, com o mundo diante de nós, prometendo tanto.

 

 

O terceiro momento, não foi de todo o mais romântico, mas foi o que maior significado teve para mim. A minha data de anos estava próxima, e, com o espírito de criança no natal, ansiava por saber o que é que a Rosa me iria dar. Esta ânsia nem se devia à prenda em si, mas sim pelo significado que trazia adjacente. Já conhecia a Rosa suficientemente bem para saber quais eram as coisas que lhe causavam repulsa e as que, pelo contrário, a deixavam a passear nas nuvens. Ela sempre fora uma rapariga muito ligada às artes, sendo que coisas como o futebol não lhe diziam nada.

 

 

Chegado o dia do meu aniversário, o presente que mais queria era estar com a Rosa e, de uma vez por todas, deslindar o mistério da sua prenda. Era meio-dia quando me levantei, afinal de contas fazia anos pelo que me eram concedidas mais umas horas embriaguez dos sentidos no leito. Dirigi-me para a casa de banho, tomei banho e fiz a barba. Por entre o vapor da água conseguia ver-me no espelho, ainda meio embaciado. Estava um ano mais velho, a minha vida tinha dado uma volta tremenda. Estava diferente, as feições de miúdo despreocupado já tinham desaparecido. Sai da casa de banho e fui para o quarto vestir-me. Em cima da cama estava já a minha primeira prenda. A minha mãe continuava a insistir em comprar-me roupa, apesar dos meus veementes protestos. Contudo reconhecia aquela roupa de algum lado. Não fazia um mês, tinha estado às compras com a minha mãe pela baixa e tinha ficado de olho na roupa que agora tinha na cama. Vesti-me e fui logo ter com a minha mãe para lhe agradecer pela prenda.

 

 

Estava à espera de a encontrar na cozinha, quando para surpresa minha, no lugar dela estava a Rosa. Era como se fosse uma premonição do futuro que nos esperava. Fui ter com ela e dei-lhe um beijo. Informou-me que os meus pais tinham ido passear e que parte da minha prenda era a que tinha diante de mim. Uma refeição feita pela minha mais que tudo. Almoçámos descontraidamente falando sobre trivialidades, sendo que por volta das 15h acabámos por sair de casa. Fomos passear à beira-rio. Estava um belo dia de estio propício a passeios. Lembrei-me de ir comprar gelados e quando ia para pagar a Rosa impediu-me com um sorriso na cara, afirmando que este era o meu dia, pelo que ela pagaria a despesa.

 

 

Chegadas as 18h, o João apareceu no seu carro. Cumprimentou a sua prima e deu-me os parabéns. Não percebia muito bem o que é que se passava à minha volta, mas a presença do João era algo suspeita. A Rosa pediu-me que entrasse no carro dele e que a deixasse colocar uma venda nos meus olhos. Concedi-lhe o pedido, pois certamente seria outra surpresa agradável como a de horas antes ainda em minha casa. O caminho ainda foi longo pelo que consegui perceber e ainda para mais apanhámos um pouco de trânsito. De qualquer forma ainda estava para saber o que me esperava. Antes de me desvendar os olhos, a Rosa disse que me amava muito e que ela queria que esta primeira prenda fosse especial. Quando me tirou a venda, tinha diante de mim o estádio da luz. Foi aqui que fiquei a saber que poderia contar com a Rosa. Apesar de odiar futebol assistiria ao jogo ao meu lado, para partilhar um pouco da minha felicidade.

 

 

 

Afinal o que é o amor se não o sacrifício e devoção pela outra parte?


Ass: Quim
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