Domingo, 2 de Dezembro de 2007

Growing up


Viver em Londres nem sempre foi um mar de rosas, especialmente pela mentalidade daquele povo. Desde sempre que me deparei com pessoas muito frias, amigas da razão, calculistas e demasiadamente educadas. Umas dessas muitas pessoas, foram os meus “sogros”.

 

 

Visto que, já namoravamos há 1 ano e o Matt já tinha estado de visita a Portugal para conhecer os meus pais, decidimos que seria altura de ser apresentada aos pais dele. Sempre gostámos de viver a nossa vida de forma algo independente, sendo mais fácil e mais cómodo, ele estar comigo no meu quarto, onde dormia com a Brigida, do que irmos a sua casa. No entanto, já era altura. Depois de ele estar em Lisboa, de tudo o que haviamos passado, a nossa relação assumia novos contornos, mais sérios. Tinha pois chegado a altura de conhecer os seus pais e, posteriormente, anunciar a nossa mais recente decisão.

 

 

Sendo que o curso para o Matt acabava e a mim restava um ano e meio, ele começaria a trabalhar em breve. Já lhe haviam feito uma proposta irrecusável. Uma firma nova de design de interiores, algo inovador no mercado e, praticamente, inexistente em Portugal, convidou-o para integrar a equipa. O salário era bastante aliciante, assim como o trabalho e sempre com perspectivas de carreira. Tudo isso fazia com que ele andasse bastante entusiasmado e eu também, já que partilhava das suas alegrias e tristezas, como qualquer outra boa namorada. Desta feita, marcámos um jantar num restaurante fino e trocámos a nossa roupa do dia-a-dia, por algo um pouco mais formal. O Matt não me havia escondido nada acerca dos seus pais. Eram pessoas conservadoras, londrinos puros nos seus ideiais e nas suas atitudes perante a vida e suas situações.

 

 

Como era de esperar, eu estava uma pilha de nervos enquanto me preparava no quarto. Escolhi mil combinações de roupa, até que a Brigida me convenceu a ir com um fato preto, uma camisola rosa de caxemira e uns sapatos condizentes. Qualquer pessoa que me visse naquele dia, haveria de achar que eu era uma senhora da alta sociedade londrina. Curiosamente havia comprado todas aquelas coisas numa feira de artigos em segunda mão, com pequenos defeitos, restos de estação. Ao contrário dos pais do Matt, os meus não eram abastados. Viviamos bem em Portugal e com algum esforço conseguiam manter-me em Londres, mas pouco sobrava para comprar roupas, por isso recorria aos mercados e feiras na ruas.

 

 

Entretanto toca a campaínha, era o Matt. Estava todo arranjado, com um fato preto, camisa branca. Levou alguma gravatas, das quais escolhemos uma rosa da mesma cor que a minha camisola de caxemira. E lá fomos nós, enfrentar o frio da noite para encontrar os seus pais. Ao chegar, avistamos o pai sozinho na mesa. Nesse momento temi o pior. A Mãe dele não me queria conhecer, foi o meu primeiro pensamento. Aproximamo-nos da mesa e dissemos boa noite. O pai dele levantou-se, com um sorriso encantador e recebeu-me como se fosse uma filha. Nesse momento, senti que já tinha ali o meu primeiro aliado. Sentámo-nos, pois a Mãe do Matt havia ido à casa-de-banho e estava a demorar. Enquanto ela não chegava, o George, pai do Matt, fazia-me as perguntas da praxe, mostrando muito interesse por mim e mostrando-se um homem afável e divertido. No momento em riamos às gargalhadas, chegou a mãe, Elizabeth. Senti-me gelar quando ela me estendeu a mão e me disse boa noite com cara de poucos amigos.

 

 

            O jantar passou-se de forma algo embaraçosa, pois se, por um lado, o George sorria muito e dizia muitas piadas, a Elizabeth mantinha uma pose séria e parecia pertencer a um grupo de jurados a meio de um julgamento, olhando-me e analisando todos os meus passos. Quando abriu a boca foi apenas para comentar que o Matt passava muito tempo fora de casa, coisa que fez enquanto sorria de forma maliciosa, como quem quer dizer que a responsabilidade era toda minha. Inesperadamente, o Matt levantou-se da cadeira e disse em voz alta que me amava e que, visto que começaria a trabalhar em breve, assim que possivel gostaria de viver comigo. Fiquei completamente sem palavras perante tal pedido, mas muito feliz. O pai aprovou a ideia de forma carinhosa, mas a sua mãe levantou-se da mesa e indignada respondeu que se soubesse que o jantar haveria de ser por aquela noticia, não teria saído de casa.

 

 

Naquele momento, tive uma incrivel sensação de dejá-vu. Algo me remeteu directamente para a noite em que o Joaquim me pediu em casamento e o meu pai estragou os nossos planos e a nossa felicidade. Receava que o mesmo que me acontecesse com a mãe do Matt, receio este que era tão visivel que, o seu Pai pousou a mão em cima da minha e pediu-me que tivesse muita calma e paciência, pois o Matt era o menino da Mamã e ela apenas não estava preparada para abdicar dele. Com o tempo tudo se resolveria, prometeu-me o meu sogro.

 

 

Longe estava eu de imaginar que o filme se repetiria......


 


 


 


 

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Terça-feira, 16 de Outubro de 2007

El niño



Ao regressar a Londres, parecia que um furacão havia passado pela minha vida, colocando a descoberto todas as minhas fraquezas, os meus medos, as minhas inseguranças. Esta transformação em mim teve, como é óbvio, repercussões na minha relação com o Matt, provocando algum afastamento e frieza da sua parte. Não podia deixar de o compreender. Ver todo o seu esforço, dedicação e paciência, durante meses a fio, cair por terra apenas por um encontro infeliz. Desta forma, estivemos quase duas semanas sem nos vermos. Se eu por um lado não o procurei, creio que ele compreendeu que eu precisava desse espaço e quis dar-me a provar um pouco do “veneno”.


 

Aquelas duas semanas foram amargas, vazias.... Era inegável que eu havia mudado a minha forma de amar, de me entregar, mas amava o Matt e ele fazia-me tanta falta....! Ainda assim, precisei daquele tempo. Precisei de pensar muito bem em tudo o que estava a fazer e planear ao lado dele. Faria algum sentido continuar a alimentar sonhos, expectativas e projecções se tudo não passasse de uma tela de surrealismo? Com a ajuda do descernimento que ainda possuia, consegui concluir que não, mas o tempo ajudou-me a perceber que a situação surreal se chamava Joaquim. Só ele era algo já tão fora da minha realidade, que nem poderia ser considerado uma ameaça. O impacto daquela noite não havia sido mais do que a surpresa de o ver e o nervosismo inerente a uma situação mal resolvida. Foi como que uma viagem no tempo e o constactar de como a vida muda tanto, em tão pouco tempo. Ali estavamos nós, ex-namorados, quase noivos, a apresentarmos os novos pares um ao outro. Depois das juras de amor, dos projectos, tudo tinha caido no saco do esquecimento. Cancelados os nossos momentos pela eternidade, haviamos encontrado noutros braços, um conforto feliz, um porto seguro que nos proporcionava a estabilidade necessária e nos permitia erguer novamente as defesas, sem perigo de nos embargarem a obra.


 

Volvidas essas duas fatidicas semanas, procurei o Matt e jurei-lhe o meu amor. Eterno jamais o seria, pois nós estavamos longe de alcançar esse estado, mas era sincero, era forte, e duraria o tempo necessário para deixar a sua marca nas nossas vidas, nas nossas histórias. Nós eramos feitos do mesmo tecido, ele proporcionava-me a estabilidade e a segurança que eu precisava, ao mesmo tempo que me surpreendia diariamente e dinamizava as nossas vidas. Eu dava-lhe o calor e a consciência do coração, combatendo toda a sua frieza e mania de seguir sempre a cabeça, ignorando os sentimentos. Funcionava como a sua consciência, o seu lado esquerdo. Despertava nele os mais nobres sentimentos e gestos e aos meus olhos ele era perfeito. Falámos sobre o episódio em Lisboa, era assunto ao qual não poderiamos fugir. Tinhamos que esclarecer tudo o que se havia passado naquela noite, para que não existissem dúvidas, inseguranças. Tive que falar-lhe da minha relação mais a fundo, explicar-lhe as razões da ruptura, para que ele assim conseguisse entender ainda melhor o motivo do meu choque. Expliquei-lhe também que, apesar do tempo passado, ainda estava vulnerável, ainda me sentia insegura e receosa de me entregar. Temia as consequências da entrega cega, do amor intenso e arrebatador que deixa um vazio no peito quando falta a outra metade do coração. Ele mostrou-me toda a sua compreensão e prometeu ser paciente, esperar que depositasse toda a confiança nele e fosse sempre a sua companheira e amor.


 

Voltámos à boémia londrina, entre concertos, galerias de arte, feiras de rua e passeios no parque. Embora a chuva fosse tudo menos convidativa a uma passeio no jardim ou na cidade, enfrentava-mo-la juntos, sem nunca perder o gosto. Fascinava-nos o cheiro a terra molhada, as noites frias passadas enrolados num cobertor, partilhando um chocolate bem quente. Foram dias tão perfeitos quanto os que passámos em Sines. Dias em que pensou em para sempre, em até ao fim das nossas vidas.


 

Em clima de felicidade, pensei por momentos em escrever ao Joaquim, para esclarecer todo aquele embaraço na noite em que nos cruzámos. Depressa desisti da ideia. Ele tinha sido mais do que explicito na sua carta. O que pretendia era distância e certamente por pensar que era a melhor atitude a tomar. Assim, deixei tudo nas mãos do tempo. Somente o tempo definiria se alguma vez voltariamos a falar.......

 

 

 

 

 

 

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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2007

Ice cold

               

                Ao terminar de ler a carta do Joaquim, já lavada em lágrimas, desejei não lhe ter escrito. A ignorância haver-me-ia mantido afastada de toda a dor que me proporcionaram aquelas meia dúzia de linhas. Estava tão mudado, tão aquilo que eu certamente não procurava no companheiro da minha vida. E em parte a culpa era toda minha. Sabia que quem me havia escrito era um Joaquim orgulhoso e altivo, com vontade de provar-me que eu já nada importava na sua vida. Era isso que mais me fazia sofrer, que ele quisesse esconder-me a sua mágoa, envolvendo-a num manto escuro de desdém. Que preferisse esconder-me o seu desagrado, dirigindo-me cinicas e cordiais palavras. Fiquei desiludida com ele, embora não mais que o estava comigo mesma. Sentia-me um pouco responsável pela sua mudança e lamentava pelo fim ao que o levara. Sabia-o capaz de amar com toda a alma, sem defesas. Sabia-o mais que aquele cubo de gelo que havia pegado numa caneta e escrito algumas noticias com a intenção sórdida de me fazer sofrer.

 

 

Os dias seguintes foram passados de forma louca, como escape para todo o vazio que aquela carta me havia trazido. Sentia azeda a boca, havia que pôr fim a esse azedume e nada melhor que algumas festas. Inevitavelmente, aproximei-me do Matt e a nossa relação fortaleceu-se à custa da minha necessidade de fugir da dor. Novamente o mesmo erro. Era-me impossível escolher o caminho mais dificil, não era do tipo de pessoas que insistia ou tentava demover um “não”. Confiava imenso no destino e de que a vida se encarregaria de me levar ao sitio certo. Era uma lutadora, mas sabia os meus limites e também sabia bem o que queria da vida e certamente não era mais sofrimento. Continuei assim com o meu apaixonadissimo e romântico namorado inglês, que passava os seus dias a engendrar planos de conquista e formas de me manter a seu lado. De inicio fui muito resistente e mostrei-me fria com ele, mas lentamente, foi-me domando, qual animal selvagem.

 

 

Os meses passavam e o Joaquim já era apenas uma memória, uma sombra do passado, que por vezes me tornava taciturna, mas nada mais que isso e nunca por muito tempo. Estava demasiado absorta na minha nova vida, mais independente, na qual tomava as minhas próprias decisões. Passava os meus dias no curso, envolta em arte e à noite passeando pelas ruas daquela grande metrópole, acompanhada pelo meu principe. Aos seus olhos tudo era arte, através dele conseguia ver o mundo com outra forma e outra cor. Planeávamos o nosso futuro minuciosamente, começando pelo último dia de curso e terminando na cadeira de baloiço, já velhinhos com dentadura, rodeados pelos inúmeros netinhos que iriamos ter. Era bonito fazer planos com ele, imaginar como seriam os nossos meninos, morenos de olhos azuis ou verdes. Um misto de duas culturas tão distintas, um calor português contrastando com uma educação londrina muito rigida.


 

No entanto, eu sabia. Um dia voltaria a Portugal e aí tudo seria diferente, tudo mudaria. Sabia-me sonhadora, mas hesitante na altura de tomar decisões. E não podia evitar o pensamento. O pensamento ocasional levava-me àquela réstia de esperança. Àquele sonho, o futuro idealizado com o primeiro grande amor. Não permitia que nada o igualasse. Talvez por isso hoje em dia, sofra um pouco as consequências de ter sido tão esquiva. Hoje em dia, o intratável é o Joaquim, tornou-se em quem evita o conflito directo, ignorando os meus sentimentos e queixas. Não o amo menos por isso, no fundo porque sinto que é este o meu karma, o preço a pagar pelo que lhe fiz. Não ignoro a impossibilidade de viver a vida carregando culpas, mas acredito que as coisas mudam. Com paciência e amor, transformamos as pessoas. Tal qual o Matthew fez comigo.


 

Após mais de 6 meses de namoro, decidi comunicar aos meus pais que estava com o Matt e que iriamos passar férias a Lisboa. O choque do outro lado do telefone só se fez sentir da parte da minha mãe, o meu pai demonstrou uma felicidade desmedida. Afinal ele era um rapaz culto, inteligente e iria ter um emprego de sucesso. Sentia que a sua filha estaria bem entregue, ao contrário de com o Joaquim, que ele descrevia “não ter onde cair morto”. Combinámos tudo para Fevereiro.


 

Era a dura prova da minha vida. E se encarasse com o Joaquim numa noite passeando pelo Bairro?


 


 

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Domingo, 22 de Julho de 2007

A carta

Acordo com a Brigida dizendo-me “Calma Rosa, calma! É só um pesadelo”. Estava lavada em lágrimas e em suor. Segundo ela, debatia-me há uns segundos, gritando em plenos pulmões algumas palavras em português. Abracei-me a ela em agonia. Tinha sonhado com o Joaquim, que voltava a Portugal e que este me tinha desprezado, dirigindo-me palavras de rejeição. Estava completamente devastada. Pedi desculpas à minha amiga, ao que ela me respondeu “devias reconciliar-te com o teu passado, vejo-te demasiado perturbada”.

 

Ela deitou-se e eu permaneci acordada, a pensar no seu bom conselho. Sentei-me à secretária e comecei a escrever uma carta dirigida ao Joaquim. Decidi que, um ano após ter partido de Lisboa, à qual não regressei por opção própria, deveria escrever-lhe algumas palavras. Afinal, não falava com ele desde essa altura e a nossa última conversa havia sido mais que dolorosa. Soube pelo primo João que ele tinha ido ao aeroporto, mas eu já havia embarcado. Foi melhor assim. Um último adeus seria o passaporte para não colocar os pés no avião e permanecer em Lisboa, indo assim contra todos os planos do meu pai e despoletando em si uma reacção que nem me atrevo a imaginar.

 

Um ano depois ali estava eu, escrevendo-lhe à trémula luz de um candeeiro que tinha comprado numa loja de antiguidades. Comecei vezes sem conta, pois as minhas palavras não me pareciam nunca suficientes e até um pouco descabidas e desprovidas de qualquer sentimento. Seria mais fácil telefonar-lhe, mas a falta de dinheiro não mo permitia. Teria que ser assim, tentaria ser o mais fiel a mim mesma e imprimir naquele pedaço de papel, todo o sentimento que ainda me restava por ele. Contei-lhe acerca da adaptação, de como estava a ser a absorção de toda a informação, a experiência, a modernidade da cidade onde vivia, aquela nova e estranha cultura. Ainda que fossemos todos europeus, Portugal era um país mais acolhedor, mais quente, mais rico no calor humano. A familia era algo essencial, e o ambiente era distinto daquele em que vivia agora. Falei-lhe de como se respirava arte em todos os cantos, dos mercadinhos, das tendas de comida na rua, das várias pessoas das mais diversas nacionalidades com quem tinha oportunidade de contactar todos os dias. Para mim essa era a verdadeira riqueza de Londres, a diversidade cultural e de como essa mistura estava a criar uma cultural geral, com uma pitada de todas as outras.

 

Falei-lhe da Brigida, das nossas aventuras, noitadas, do curso. De como estava a aperfeiçoar o meu inglês e de como pouco a pouco ia aprendendo italiano, por influência da minha colega de quarto. Descrevi-lhe uma experiência magnifica, que até eu gostava de ter vivido. Não quis falar-lhe das saudades, nem das noites tristes, muito menos das lágrimas. Não queria afligi-lo. Também não mencionei o meu envolvimento com o Matt. Por mais que ele pudesse ter ultrapassado a nossa relação, sabia que isso o iria magoar, pois ao colocar-me na sua posição, sei o quanto isso me magoaria a mim. Perguntei-lhe como estavam as coisas em Portugal e que fazia agora da sua vida. Pedi-lhe que me escrevesse a dar noticias, que nada me faria mais feliz que poder retomar o contacto com ele. Em nome de todas as coisas boas que tinhamos passado e que eu jamais esqueceria.

 

Após terminar a carta, senti-me tentada a rasgá-la, pois parecia-me um tanto cheia de ilusões, pouco fiel à minha realidade. Pensei também que pudesse trazer-lhe alguma raiva ou desilusão, pois o custo da minha experiência foi o final da nossa relação e do nosso sonho de nos unirmos para toda a vida. Apercebi-me do caos que causei na sua vida e senti-me injustiçá-lo ao escrever-lhe esta carta, numa tentativa de desenterrar sentimentos antigos. Que direito tinha eu de lhe dizer que sentia a sua falta? Estava com outra pessoa e ainda mais dois anos em Londres. Guardei a carta e decidi aconselhar-me com a Brigida na manhã seguinte, afinal duas cabeças sempre pensaram melhor que uma apenas.

 

Quando estava nos correios, ainda hesitei, mas a Brigida pegou-me no braço e atirou a carta para dentro da caixa. Já não havia volta a dar. Agora só me restava esperar ansiosamente pela carta do Joaquim e por sorver as suas palavras uma a uma. Fossem elas de amor ou de ódio. Tive medo, obviamente, mas com o passar dos dias fui perdendo até a esperança de ter resposta à carta. Quase desesperei.....

 

 

Hoje em dia, ao auto-avaliar-me concluo que foi, sem sombra de dúvidas, a melhor atitude que alguma vez tomei em toda a minha vida. Sem aquela carta, aquelas palavras, arriscar-me-ia a perder o grande amor da minha vida......

 

 

Ass: Rosa

 

 

 

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Domingo, 15 de Julho de 2007

London date, French kiss

            

                 Esforcei-me para chegar a horas ao encontro com o Matt, mas a minha condição de mulher impediu-me de alcançar esse feito. Por pior que fosse esse hábito de nunca chegar a horas, custava-me cada vez mais vencê-lo. Desleixava-me em relação às horas em encontros com amigos, exactamente por saber que estava à vontade para isso. No entanto, ele não pareceu minimamente incomodado com isso e no seu caso, creio que a espera aumentou a ansiedade. Era um rapaz alto, moreno, com uns expressivos e alegres olhos azuis, cor de céu. Era mesmo bonito. Consoante me aproximava do local combinado, podia ver o seu sorriso aumentar. Inevitavelmente, sorri para ele. Na altura não me apercebi, mas com o seu gesto já havia ganho alguma da minha confiança.

 

Fez questão de me beijar a mão, qual cavalheiro inglês. Levou-me a beber um chá a uma casa chinesa. Fiquei bastante surpreendida com a sua atitude. Lembrou-me tanto o meu Joaquim. A principio temi por mim na sua presença. Após tamanha desilusão amorosa forçada que havia vivido com o Joaquim, encontrar um homem que se parecesse com ele, era bastante perigoso. Arriscava-me a querê-lo apenas por me lembrar outro alguém, outro coração a quem chamei “casa”.

 

Estas dúvidas só se desvaneceram com o tempo. Percebi aos poucos que a bondade do Joaquim, não estava latente neste homem. Que a perfeita simbiose em que vivi a minha vida ao lado do homem com quem escolhi casar-me, estava longe de acontecer com o Matt. Ainda hoje sei que jamais poderia ficar com ele toda a minha vida. Os nossos espiritos eram um tanto dispáres, as nossas almas almejavam diferentes realizações pessoais. Algo que nos distanciou lentamente e nós impediu de continuar enquanto namorados.

 

Após aquela noite de harmoniosa conversa, acompanhada de um chá, um cheiro agradável a insenso e luz ambiente, encontrámo-nos mais algumas vezes até ao nosso primeiro beijo. Fez-me a corte digna de um romance de cavalaria. Exactamente como viamos nos filmes, era impossível resistir ao seu charme. Ele fazia-me esquecer o mundo, as desilusões, o Joaquim, o que havia deixado em Lisboa. Fui completamente introduzida na vida londrina da altura, a Brigida costumava dizer-me que já não era portuguesa e que não voltaria a Portugal com o final do curso. No final foi ela quem ficou.

 

Claro que namorar um londrino me facilitou em muito a aprendizagem do inglês e integração na sociedade. Comecei a compreendê-los bem melhor do que antes. Eram educados demais, frios e distantes. As suas vidas eram stressantes, preenchidas, vazias. O Matt e eu não passámos por essa fase da vida, eramos muito jovens, ainda estudavamos, tinhamos todo o tempo do mundo um para o outro. Passavamos imenso tempo juntos. Eramos alunos de artes, factor que influenciava em muito a nossa relação, pois era um ponto comum e de acordo. Tinhamos gostos muito parecidos e chegámos mesmo a pensar em trabalhar juntos, para um objectivo comum. Adoravamos visitar galerias de arte, exposições. A nossa tarde de domingo era geralmente passada no parque da cidade, a ler um livro.

 

Como artistas que eramos, a viver numa cidade como Londres, eramos pessoas naturalmente excêntricas. Tinhamos alguns gostos um tanto ou quanto bizarros. Abandonei os meus vestidos esvoaçantes e o meu toque doce e inocente. Adaptei um estilo chamado actualmente “street”, jeans, sapatilhas de ténis. Algo muito diferente, mais descontraído e adaptado à vida de metrópole. Quadrados, bolas, cores berrantes, padrões invulgares. Cheguei a ser feliz. O Matt tratava-me como a uma princesa. Era terno, compreensivo, respeitador, divertido. Discutiamos pelas nossas diferenças, mas no essencial concordavamos. Ao seu lado descobri que o amor exige muita aceitação, paciência. Descobri que no fundo tinha que ser um pouco menos caprichosa e muitas vezes desejei correr dali para fora e voltar para os braços do Joaquim. Ele sim me acolhia como ninguém. Arrependi-me amargamente pelo meu erro em todas as noites passadas no meu flat a chorar, apenas em companhia da Brigida. Hoje em dia encaro tudo como um mal necessário. A minha atitude infantil custou-me caro, mas fez de mim a mulher que sou hoje.

 

Por vezes pareço mal agradecida, mas na verdade o Joaquim continua a ser parte da minha existência e sei que no fundo de nós existe ainda muito amor....

 

 

 

 

 

Ass: Rosa

 

 

 

 

 

 

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Sábado, 7 de Julho de 2007

A vida em Londres

Nem tudo foram facilidades quando cheguei a Londres. Sempre soube que ser emigrante era dificil, talvez não estivesse preparada para tanta dificuldade e essencialmente, para tanta má vontade. Entre colegas de curso existia uma cooperação inata, eramos todos estrangeiros tinhamos que comunicar à força e com os meios que dispunhamos. A empatia com a Brigida foi imediata e na nossa primeira noite em local estranho, partilhámos quase toda a nossa vida, sorrindo. A sua situação era completamente oposta à minha. O seu namorado esperava-a em Milão e ambos acreditavam que aguentariam três anos de separação. Cedo se constatou que era uma tarefa demasiado árdua para alguém tão jovem.

 

Os primeiros meses em Londres oscilaram entre o auge da excitação e felicidade e a mais pura depressão, tanto para uma quanto para a outra. Não conheciamos a cidade e como ambas falavamos mal inglês, era dificil movimentar-nos. Os ingleses não falavam uma palavra de nenhuma língua sem ser da sua. Viviam como se do centro do mundo se tratassem e isso revoltava-me e a todos os meus colegas. Claro que, com o tempo fui entrando no seu ritmo de vida agitadissimo. Compreendi até porque tomavam tanto chá por dia. Divertia-me imenso à procura de pechinchas nos seus mercadinhos, deambulando à noite pelos pubs.

 

Poucas mulheres frequentavam o curso em que estava inscrita. Não que estas fossem menos artísticas que os homens, apenas porque o mundo ainda era um local machista. Qualquer mulher que estudasse mais que o ensino regular, era considerada uma privilegiada. Como estavamos em minoria, juntavamo-nos imensas vezes com os rapazes e iamos conviver para os bares. Desta forma conheciamos imensa gente, ingleses e estranjeiros de outras escolas e cursos. Foi assim que conheci o Matthew. Matt, como todos o chamavam. Era o ser mais popular que alguma vez havia conhecido. Popular não só pela sua beleza, mas essencialmente pela sua capacidade inata de fazer amigos, mostrando sempre um branco e perfeito sorriso a todos que encontrava. Invariavelmente, estava sempre rodeado de raparigas que reclamavam a sua atenção e um pouco da sua companhia. A principio julguei até que era uma dessas pessoas vazias que encontramos por aí. Homens cujo o único interesse é puramente carnal, algo que me repugnava especialmente.

 

Havia conversado com ele duas vezes. Era inglês, nascido e criado em Londres com um sotaque londrino, muito vincado. Era estudante de Arquitectura e um dos melhores alunos da sua universidade. No entanto, achei-o particularmente “espalha magia” e nunca lhe dei muito crédito, nem tão pouco me dei ao trabalho de ter uma conversa inteligente com ele. Ao contrário de mim, ele tentava abordar temas interessantes, tentativas falhadas perante a minha ironia. Só quando estive sozinha com ele é que consegui perceber as suas verdadeiras intensões.

 

“TRRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM”. Alguém colou o dedo à nossa campaínha aquela manhã. Com esforço levantei-me e fui abrir. Estava com uma dor de cabeça infernal, resultado da excessiva ingestão de alcóol na noite anterior. Ao abrir nada mais vejo que um enorme ramo de orquideas brancas. As minhas flores preferidas! Por entre os ramos lá encontrei a cara do moço de entregas, que me diz em inglês quase imperceptível, “são para Rosa Trindade”. Fiquei muito espantada, estava convencida que fossem para a Brigida, pois um polaco andava a fazer-lhe a corte.

 

Encontrei um pequeno cartão pendurado e após ter cheirado insistentemente aquele aroma magnifico, arranjei uma jarra e coloquei-as dentro de água. Fiquei com o cartão na mão, em jeito de menina curiosa, mas temerosa pelo que fosse ler. Abri-o cuidadosamente e li o seguinte repto: “Porque sou mais do que pensas, encontro-te na ponte de Londres, às 21h. Não aceito não como resposta”. Só quando vi a assinatura dele é que me apercebi de tudo e completamente estupefacta sentei-me no sofá.

 

Entretanto, a Brigida que havia acordado quando tocaram à porta, aparece à porta do quarto e pergunta-me “Quem era?”, mas ao ver a minha cara, precipitasse para mim e retira-me o cartão das mãos. A sua reacção foi a mesma que a minha, apenas com o acrescento de um “Ma che catzo...?”.... Ficámos sem palavras.

 

Hoje em dia semelhante convite não causaria o mesmo efeito em mim, mas com certeza que gostaria de reecontrá-lo. Houve alturas em que desejei nunca ter saido da sua companhia.....


 


 


 


 

Rosa


 


 


 


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