Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

Lavar as mãos


Após uma noite bem dormida, decidi por mãos à obra. Tinha de escrever uma carta à Rosa, pedindo-lhe desculpas pela forma como a havia tratado na carta anterior e, consequentemente, engolir um enorme sapo em prol de uma longa amizade. A tarefa era bem mais árdua do que parecera à partida. Já haviam passado trinta minutos e a folha continuava em branco. Não sabia por onde começar. Havia tanto para dizer e ainda assim esse tanto poderia reduzir-se a um simples pedido de desculpa. Pus um disco a tocar e deixei-me embalar pela melodia. A música fazia-me viajar apesar de não me mover um centímetro que fosse no meu quarto. Ouvi umas músicas de olhos fechados na esperança de entrar numa espécie de transe que me permitisse atenuar a dificuldade da tarefa. A verdade é que a música em nada ajudou, pelo que fui a janela fitar o céu enquanto fumava um cigarro. Da janela do meu quarto conseguia vislumbrar uma nesga de Tejo, nesga essa que em dias me parecia uma imensidão. Hoje certamente não era um desses dias, tinha mais em que pensar que naquela faixa azul por entre prédios e telhados.




Ouvia na rua as crianças a jogarem a bola e a rirem. Por momentos relembrei a minha infância passada naquele páteo chutando bolas com os meus amigos enquanto, na sombra de um plátano, as miúdas brincavam com as suas bonecas e falavam sobre o que fosse que tinham a falar naquela altura. Era, sem dúvida, uma época tão mais descomplicada, não havia namoros, não havia estudos, não havia trabalho, enfim as preocupações eram efémeras.




De volta à minha escrivaninha, peguei na caneta e comecei a escrever. Era como que um desabafo, um rascunho, uma conversa comigo mesmo que seria trabalhada até se tornar em carta para a Rosa. Decorrida uma hora tinha um texto de três páginas onde, basicamente, pedia desculpas à Rosa por a ter tratado de forma tão fria. Para ser absolutamente sincero o pedido de desculpas era mais dirigido a mim próprio que à Rosa, uma vez que eu havia-me tornado numa pessoa diferente, menos alegre e despreocupada. Esta carta servira para exorcizar os meus demónios, para tentar alcançar paz de espírito.




Uma vez terminada a carta, telefonei à Mafalda para que fossemos dar uma volta ou qualquer coisa do género. Para minha surpresa, esta ficara sozinha em casa pelo que me convidou para lá ir ter mais tarde e, inclusivé, passar a noite. Seria a primeira noite passada juntos em casa dos pais dela. Não eram pessoas que se deslocassem para fora da cidade regularmente. Aliás eles tinham vindo para Lisboa para escaparem à pasmaceira da cidade de onde provinham. Os seus pais regressaram durante o fim de semana a Braga para estarem presentes no funeral de um colega de escola que lhes era muito querido. A Mafalda por sua vez nunca chegara a conhecer o colega de seus pais pelo que a sua vida decorria alegremente.




Ainda em casa procurei uma garrafa de bom vinho na garrafeira do meu pai para que nos acompanhasse durante o serão. Como ainda dispunha de algum tempo passei a carta a limpo, coloquei-a no envelope e colei-lhe o selo. Perfumei-me e sai de casa. A caminho de casa da Mafalda deixei a carta no marco do correio e segui o meu caminho aliviado. Já era menos um motivo para demorar a adormecer...

Ass: Quim


 


 

sinto-me: (Ninja das Caldas)
música: Fast as you can - Fiona Apple
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escrito por reversivel às 03:47
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2 comentários:
De alexiaa a 5 de Janeiro de 2008 às 17:22
Cigarro fumado á janela...porque não tarda nem em casa se pode ter prazer com o dito sem que de imediato os censores brandam frenéticos pondo em risco o nosso tecto:))

Palermices à parte achei graça ao título que explica bem o que se passa no texto...descargo de consciência, quem já não utilizou tal sistema!

Beijocas
De charroco a 19 de Janeiro de 2008 às 10:23
Diz piaçaba é fixe .
O que interessa é boa disposição e mai nada .


Diz piaçaba é fixe .


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