Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

Re-nascer do sol

Os dias tranquilos pareciam não querer durar muito. O reencontro da Rosa viera abalar as fundações da minha relação com a Mafalda. Os seus medos haviam sido postos a descoberto bem como as minhas fraquezas. Teoricamente tal partilha deveria ter consolidado a situação, mas por obra da sorte, não foi esse o efeito de tal aberta conversa. Competia-me tentar remediar o mal que a minha insegurança trouxera e, como tal, achei que seria adequado proporcionar o serão mais agradável possível à minha companheira como forma de pedir desculpas. Fui buscá-la a casa por volta das onze. Tinha-lhe pedido que não jantasse pois queria que o fizesse comigo. Assim sendo fomos directos ao Príncipe Real para jantarmos no Snob, um bar/restaurante que reunia a elite de pensadores da nossa cidade. Esses pensadores tinham o hábito de jantar fora de horas e de transformar as suas refeições em autênticas tertúlias onde se discutia a sociedade e política. Não era com esse propósito que lá iríamos jantar. Tinha escolhido esse sítio pela sua decoração e pelo ambiente íntimo que proporcionava, adequado a um momento a dois, além do que àquela hora dificilmente se encontraria outro sítio para ter uma refeição.

 

 

 

Por entre o fumo espesso dos charutos e de cachimbos vislumbravam-se homens que, em discussões aguerridas, defendiam com unhas e dentes os seus pontos de vista sobre o estado do nosso país. Esta parecia ser uma condição de que padeciam muitos dos que por lá se encontravam. Deformação profissional certamente uma, vez que estávamos perante jornalistas, advogados e políticos. Os ânimos acalmaram-se assim que a comida chegou àquela mesa, pelo que o silêncio começou a alastrar por toda a sala. Era o momento adequado para falar de novo com a Mafalda sobre o assunto que nos atormentava. Apesar da última conversa sobre o tema Rosa não ter surtido grande efeito, estava apostado em que esta fosse um tanto ou quanto diferente. Queria deixar tudo em pratos limpos de forma a termos paz e sermos novamente só os dois.

 

 

 

Confidenciei que me tinha sentido bastante desconfortável ao rever a minha ex-namorada, mas tal reacção parecia-me natural. Afinal de contas tinha tudo ficado suspenso por desígnio próprio da Rosa e de seu pai. Quer quisesse quer não, a Rosa faria para todo sempre parte da minha história, bem como a Mafalda o fazia agora ainda que de forma diferente. Esta já tinha conhecimento da carta que eu tinha recebido por parte da Rosa, à qual eu respondera de forma demasiadamente fria. Disse-lhe que me sentia mal pela forma que tratara a Rosa, apesar de ter a razão do meu lado. O Joaquim que escrevera aquela carta era um Joaquim magoado e altivo com sede de vingança. Estava bem longe daquilo que me imaginava, mas tudo tinha sido feito por uma razão. Essa razão estava à minha frente ouvindo-me religiosamente.

 

 

 

A Mafalda interrompeu-me. Disse estar feliz por ter sido ela a razão pela qual eu tinha respondido de forma fria e desinteressada à Rosa, contudo, uma vez que compreendia a minha posição aconselhou-me a escrever de novo à Rosa. Disse-me que apesar de tudo o que havia passado era claro que eu ainda gostava da dela. Talvez não fosse da mesma forma, talvez somente como amigo, uma vez que nos conhecíamos há algum tempo.Ainda para mais era o melhor amigo do seu primo pelo que deveria deixar resolver a situação. Eu agradeci-lhe por compreender a minha situação. A forma bruta como tratara a Rosa, por muita justificação que tivesse, não era de todo a forma que eu queria ser lembrado. Esta era mais uma demonstração de confiança que a Mafalda tinha em mim. Tinha-me como incapaz de a trair, isso era um dado adquirido. Tal demonstração fazia com que a admirasse ainda mais.

 

 

 

A ceia acabara por volta da uma da manha e, uma vez que estávamos perto do bairro alto, decidimos fazer a ronda habitual aos bares de forma a espairecer e ouvir boa música. Nesta noite sentia-me mais próximo da Mafalda do que estivera outrora. Havíamos superado um entrave juntos e isso era muito importante. Por essa razão não quis que a noite acabasse da mesma forma que as outras. Tinha de ser uma noite especial para ambos de forma a celebrar este marco. Passámos por minha casa de forma a que pudesse pegar uma série de coisas das quais necessitava. Eram já quatro da manhã quando saímos de minha casa. Dirigimo-nos ao Jardim do Torel. Comigo trazia a minha guitarra, umas mantas e um “termus” com chá quente. Iluminados pela lua fomos esperando pelo nascer do sol embalados por músicas de que ambos gostávamos. Assistimos abraçados ao nascer do sol, como que celebrando uma nova fase da nossa relação. Adivinhava-se uma fase mais serena de entrega mútua ou pelo menos a tentativa da minha parte. Deixei a Mafalda em casa e ao despedir-se de mim agradeceu aquele momento que havia-mos tido. Disse-me que deveria ter uma boa noite de sono de forma a que no dia seguinte começasse a pensar no que escrever à Rosa. Tanto eu como ela queríamos que a situação se resolvesse de uma vez por todas. Seria uma pedra a menos no sapato...


 


 


 


 

Ass: QUIM

sinto-me: cansadote assim por dizer
música: Mariza - Menino do Bairro Negro
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escrito por reversivel às 01:16
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6 comentários:
De alexiaa a 7 de Novembro de 2007 às 20:40
Hum...e sexo? Foi quando ela foi buscar as tais coisas ou nao existiu e ponto final?:)) A resposta pode ser que aqueça a personagem...sinto-o frio...
De reversivel a 8 de Novembro de 2007 às 01:26
Vamos ter a tua opinião em consideração. Alias é mesmo para isso que servem os comentários. Servem, para além de termos algum feedback, como um impulso para a nossa escrita!! Por essa razão e muitas outras um obrigado sincero a quem tem comentado!!!! Saude
De alexiaa a 19 de Novembro de 2007 às 18:05
Não sei bem se o facto de eu sentir o personagem masculino mais frio que o feminino não é propositado...afinal de contas ha por aí o boato que os homens são uns insensiveis:)).
Bem...o que interessa é que é bom ler(vos), o resto vai "rolando" como as cerejas( sou pessima a proverbios).

BJo
De reversivel a 19 de Novembro de 2007 às 20:46
a tentativa de provérbio foi muito boa :P, anyway, tanto o quim como a rosa são estereótipos dos géneros que representam por isso é normal que o notes mais frio. de qualquer forma ainda temos muito para descobrir sobre os protagonistas desta história, por isso resta-nos esperar por novos "episódios" ou então recordar os antigos para deslindar-mos a essência deles.
De J a 27 de Novembro de 2007 às 15:46
já escreviam o resto da história, não?...
De reversivel a 27 de Novembro de 2007 às 21:49
este blog é escrito a duas mãos e, como tal, tou a espera do texto da co-autora de forma a escrever o meu!!! É só esperar mais um pouco que ele deve estar mesmo aí a aparecer!!! Até lá, aproveitem e leiam os textos iniciais!!!!

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