Terça-feira, 25 de Setembro de 2007

Epiphany

Uma semana havia passado desde o fatídico encontro. A Rosa já retornara a Londres com o seu mais que tudo. No nosso cantinho à beira mar plantado a vida corria bem, como era apanágio dos últimos tempos. Contudo acabei por não conseguir evitar a conversa com a Mafalda sobre a Rosa. A sua curiosidade pela minha anterior relação não parecia ter ficado saciada na única conversa que havíamos tido, além do que eu também não havia tornado o assunto proibido, pelo que ela insistiu e eu cedi. Contei-lhe como tudo havia começado há tempos atrás, como o nosso amor havia desabrochado e crescido e, por fim, as dificuldades que enfrentou e que fizeram com que ele desfalecesse. A Mafalda assistia impávida ao que lhe contava. Aparentava estar estática apesar de eu conseguir destrinçar um tumulto através do seu olhar. Senti-me olhado com alguma pena, como se me quisesse dizer que tal acontecimento me havia traumatizado para todo o sempre. Em parte era verdade, hoje era quem era muito por força disso.

 

 

 

Quando terminei a minha exposição quis dar a palavra de novo à Mafalda. Ela não a tomou pois estava sobejamente emocionada, em vez disso beijou-me. Era um beijo de compaixão, de compreensão como se de um “vai ficar tudo bem” se tratasse. Envolveu-me num forte abraço para me dar a saber que poderia contar com ela sempre que necessitasse. Por fim, acabou por tomar a palavra, perguntando-me porque não tínhamos o mesmo. Eu tentei explicar que aquilo havia sido uma paixão de adolescente, o primeiro amor e que dificilmente teríamos o mesmo não por causa da Rosa ou da Mafalda mas mesmo por causa de mim. Não queria cair nos mesmos erros e com isso sofrer da mesma forma. Ela pareceu compreender mas ficou algo reticente. Ao olhar para ela conseguia ler-lhe o pensamento. Ela parecia pensar que eu não a amava a sério, o que não era verdade, apenas amava de forma diferente. Tentei explicar-lhe isso mas as palavras não pareciam ser suficientes e tinha medo que os gestos fossem demasiado impulsivos.

 

 

 

Pedi-lhe para que fosse razoável, que não me pedisse o impossível, mas ao fazê-lo apercebi-me de que nunca seria capaz de a amar como amara a Rosa. Pela Rosa predispunha-me a tentar o impossível enquanto com a Mafalda baixava-lhe as expectativas e com isso provavelmente não a faria feliz a longo prazo. Guardei tal pensamento para mim. Estava interessado no presente, não queria mais fazer planos para o futuro que, mal fossem gizados, seriam apagados pelo decorrer do tempo. A Mafalda pareceu encontrar algum consolo nas minhas palavras e serenamente limpei-lhe as lágrimas da face que até então teimavam em não parar de correr.

 

 

 

Foi com um ambiente menos pesado que a deixei em casa despedi-me com um beijo apaixonado de forma a reconfortá-la e tentar fazer com que não se fosse deitar atormentada pelas palavras ditas mais cedo. Apesar de tudo amava-a, ainda que de forma diferente, e tal amor era correspondido de forma desenfreada, algo masoquista mesmo. Tinha desse lado a entrega da qual já não era capaz. Isso fazia-me ter muito cuidado com as minhas acções, não queria que as suas consequências transformassem a Mafalda num ser como eu incapaz de uma entrega total. Admirava-a entre muitas razões, por isso, por ser comigo o que eu nunca poderia ser com ela.

 

 

 

O bater da porta afastou-me das minhas considerações e reparei que a Mafalda já tinha entrado em casa. Talvez fosse melhor ficar por ai não fosse alguém dizer algo que não tivesse intenção. Mal comecei a descer as escadas de acesso à rua comecei a pensar no que é que poderia fazer para demonstrar-lhe o que sentia…


 


 


 


 

Ass:  Quim

sinto-me:
música: My Body Is A Cage - Arcade Fire
marcadores:
escrito por reversivel às 02:04
link do post | opina | favorito
|
4 comentários:
De Isa a 27 de Setembro de 2007 às 23:32
Continuem! Não percam a embalagem, porque ainda passo aqui e isto vicia! Promete! Força aí :)
De alexiaa a 10 de Outubro de 2007 às 19:03
Hum...não prevejo a vida facilitada a nenhuma destas personagens:)

De reversivel a 10 de Outubro de 2007 às 22:52
Se a vida não fosse difícil não dava lugar a histórias! Dessa forma não teríamos esta! obrigado pelos comentários
De lê-me a 4 de Maio de 2008 às 20:52
Blog interessante: personagens, história, tem um pouco das nossas vidas. Parabéns!
Hei-de continuar a ler.

Comentar post

badge

.reversibilidade ao pormenor

.pesquisar

 

.Abril 2009

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.clica para fugir daqui

.marcadores

. todas as tags

.o nosso dia-a-dia

.O que se ouve por aqui

blogs SAPO

.subscrever feeds