Terça-feira, 28 de Agosto de 2007

Coincidência

        A vida corria-me de feição. A minha relação com a Mafalda estava completamente estável e os condicionamentos que outrora a memória da Rosa trouxera já haviam deixado de existir. Finalmente tinha paz de espírito, o que me permitia que me entregasse de uma forma mais despreocupada à minha companheira. Contudo, sentia-me diferente. A minha entrega já não era a de outros tempos, possivelmente por resquícios subconscientes da minha má experiência anterior. Era como que uma cicatriz sentimental imperfeitamente sarada. Apesar disso a Mafalda não parecia queixar-se, talvez porque não reparava ou até mesmo por nunca ter tido uma experiência igual à que teve comigo. Esta angústia que me assolava foi perdendo importância com o decorrer do tempo já que fui aprendendo a amar de outra forma. Impunha quase que cláusulas de salvaguarda do meu ser, de forma a que, se o pior se avizinhasse, eu saísse o mais impune possível. Por outro lado já há muito que não tinha notícias da Rosa. Pelos vistos a minha carta tinha alcançado o objectivo pretendido, a distância. Por fim tinha-a longe da vista e do coração.

           

 

 

Já havia conhecido os pais da Mafalda. Eram pessoas simples que haviam deixado Braga em busca de uma nova vida, pois já não aguentavam o tédio de uma pequena cidade. Desenvolvi uma grande amizade por ambos, especialmente pelo seu pai que passou a ser meu companheiro de bola, com o qual acompanhava os jogos do Benfica. A sua mãe por seu turno era uma cozinheira exímia. Isso conjugado com a amabilidade de ambos, característica das pessoas do norte, deixava-me sobejamente contente. Sabia que dali também não haveriam represálias como outras que se passaram.

           

 

 

A Mafalda e eu buscávamos incessantemente oportunidades para ouvir boa música, pelo que muitas vezes frequentávamos o bairro alto. Por entre bares alternativos e com música ao vivo, lá íamos vivendo os nossos momentos a dois. Numa dessas noites menos frias de Fevereiro, deixámos o conforto das nossas casas para ir assistir a um concerto de rock. Na altura ainda se ouvia muito Frank Zappa e Led Zepellin, sendo que os dois constituíam duas sonoridades que nos eram bastante aprazíveis e, por isso, nos conseguiam afastar do nosso cantinho e enfrentar a noite. Nessa noite iríamos a um bar que era conhecido por ter exposições de arte contemporânea e por fazer cafés-concerto de bandas “mais alternativas”. O concerto começava às 23h, pelo que decidi que seria boa ideia deambular pelo bairro alto de forma a matar o tempo. Fomos bebendo o nosso copo aqui e ali, encontrando as caras do costume perdendo os cinco minutos cordiais da praxe. Ao volver uma das esquinas que dava acesso à rua do bar em questão, não quis acreditar nos meus olhos. O meu batimento cardíaco acelerou exponencialmente e ir ao bar deixou de me parecer assim tão boa ideia. À última da hora tentei convencer a Mafalda que afinal assistir ao concerto não seria assim muito boa ideia, que provavelmente conseguiríamos arranjar uma alternativa bem mais interessante. Não consegui demover a Mafalda que insistiu que entrássemos. Respirei fundo e avançámos. Estava a escassos metros da Rosa e um rapaz qualquer que não parecia ser português. Sentia o meu coração pulsar freneticamente e uma descarga de adrenalina. A Rosa virou-se e reparei nos seus olhos nos meus. Peguei na mão da Mafalda e avancei. Uma coisa era não ligar nenhuma à Rosa estando ela distante, mas agora ela estava bem perto, e o mínimo que eu podia fazer era dar as boas noites e apresentar a minha companhia. Assim o fiz, a atrapalhação da Rosa era latente. Não estaria certamente à espera que eu tivesse aquele tipo de reacção após as frias palavras que lhe havia endereçado a última vez que comunicámos. Apresentei a Mafalda como minha namorada, afinal de contas já o éramos há algum tempo. Ela apresentou-nos o Matthew como seu namorado. Estavam ambos de férias em Portugal e tinham aproveitado essa oportunidade para conhecerem também as tendências artísticas contemporâneas.

 

 

 

A Rosa estava visivelmente mudada, o seu ar ingénuo havia-se alterado. Era agora uma mulher segura de si própria, dona do seu nariz, ou pelo menos aparentava sê-lo. A Forma como se vestia também estava muito diferente, mas isso eram óbvias influências de exposição a uma cultura tão diferente da sua original. Os seus olhos já não tinham o brilho que me havia cativado anos antes e isso talvez reflectisse o seu estado de alma, não sei, aliás não queria saber. Por sorte um grupo de conhecidos meus e da Mafalda também tinha resolvido estar presente naquela noite, naquele bar, pelo que nos chamaram para junto deles. Aproveitei a deixa para abandonar o casalinho internacional pois já havia cumprido o propósito daquela conversa. Durante o concerto todo não consegui deixar de olhar esporadicamente para a Rosa. Fiz um esforço por não me demorar muito nessas incursões visuais, uma vez que tanto do lado dela como do da Mafalda tal não seria levado de ânimo leve e geraria algum desconforto.

 

 

 

O concerto terminou e nós ficámos ainda no bar discutindo algo de tal importância que hoje não me recordo, ou seja, as futilidades habituais. Desta vez a bola havia passado para o outro lado do court. Assim sendo, foi o turno da Rosa se despedir. Com toda a naturalidade possível despedi-me, também, dando um vigoroso aperto de mão a Matthew de forma a dar a entender que a situação não tinha sido de todo desconfortável. Momentos mais tarde, a Mafalda quis saber mais sobre a Rosa, pois finalmente havia-a conhecido. Pedi-lhe que tal conversa ficasse para mais tarde. Nessa noite já havia tido uma dose de Rosa superior àquela que a distância de meses me havia acostumado.

 

 

Fui deixar a Mafalda a casa. No retorno à minha, enquanto fumava o meu cigarro e era presenteado com uns leves choviscos, fui-me recordando de outros tempos, na altura já um tanto ou quanto difusos, distantes, quase que indiferentes, ainda assim não deixei de ponderar o sentido dos mesmos. Uma boa noite dormida poria tudo no sítio certo, esperava eu.


 


 

Ass: Quim

sinto-me: Revigorado
música: How Near, How Far- And You Will Know Us By The Trail Of Dead
marcadores:
escrito por reversivel às 16:47
link do post | opina | favorito
|
4 comentários:
De alexiaa a 31 de Agosto de 2007 às 10:51
Acho graça ao sossego que as vezes nos impomos. Não digo que correr sempre atras do que nos provoca adrenalina seja solução mas nem sempre o que nos parece certinho é tb o caminho correcto. A vida é um bingo do caraças:))

kiSS
De Carolina a 31 de Agosto de 2007 às 13:52
Até eu fiquei com a adrenalina em alta pah! :p
Tava-se mesmo a ver k se iam encontrar no bairro. o sítio onde tudo acontece :-)
De leonoreta a 1 de Setembro de 2007 às 22:19
é um texto excelente. bem escrito "curto" e grosso, isto é, de simples leitura que prende o leitor.
beijinhos
De Daniela a 12 de Setembro de 2007 às 09:35
Sra D. Reversivel!
Ora para voce estar a comentar-me as 9:00 da manhã, eu espero que esteja a trabalhar!
Como tal, é possivel V. Exa informar-me para idjunot@gmail.com o seu endereço de msn e já agora se usa skype ou não!?!?!?!?!?!?

HM?

HUM???
Vamos ter de nos chatear ou que?!

Ai que a menina leva!

Comentar post

badge

.reversibilidade ao pormenor

.pesquisar

 

.Abril 2009

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.clica para fugir daqui

.marcadores

. todas as tags

.o nosso dia-a-dia

.O que se ouve por aqui

blogs SAPO

.subscrever feeds