Sexta-feira, 3 de Agosto de 2007

Ice cold

               

                Ao terminar de ler a carta do Joaquim, já lavada em lágrimas, desejei não lhe ter escrito. A ignorância haver-me-ia mantido afastada de toda a dor que me proporcionaram aquelas meia dúzia de linhas. Estava tão mudado, tão aquilo que eu certamente não procurava no companheiro da minha vida. E em parte a culpa era toda minha. Sabia que quem me havia escrito era um Joaquim orgulhoso e altivo, com vontade de provar-me que eu já nada importava na sua vida. Era isso que mais me fazia sofrer, que ele quisesse esconder-me a sua mágoa, envolvendo-a num manto escuro de desdém. Que preferisse esconder-me o seu desagrado, dirigindo-me cinicas e cordiais palavras. Fiquei desiludida com ele, embora não mais que o estava comigo mesma. Sentia-me um pouco responsável pela sua mudança e lamentava pelo fim ao que o levara. Sabia-o capaz de amar com toda a alma, sem defesas. Sabia-o mais que aquele cubo de gelo que havia pegado numa caneta e escrito algumas noticias com a intenção sórdida de me fazer sofrer.

 

 

Os dias seguintes foram passados de forma louca, como escape para todo o vazio que aquela carta me havia trazido. Sentia azeda a boca, havia que pôr fim a esse azedume e nada melhor que algumas festas. Inevitavelmente, aproximei-me do Matt e a nossa relação fortaleceu-se à custa da minha necessidade de fugir da dor. Novamente o mesmo erro. Era-me impossível escolher o caminho mais dificil, não era do tipo de pessoas que insistia ou tentava demover um “não”. Confiava imenso no destino e de que a vida se encarregaria de me levar ao sitio certo. Era uma lutadora, mas sabia os meus limites e também sabia bem o que queria da vida e certamente não era mais sofrimento. Continuei assim com o meu apaixonadissimo e romântico namorado inglês, que passava os seus dias a engendrar planos de conquista e formas de me manter a seu lado. De inicio fui muito resistente e mostrei-me fria com ele, mas lentamente, foi-me domando, qual animal selvagem.

 

 

Os meses passavam e o Joaquim já era apenas uma memória, uma sombra do passado, que por vezes me tornava taciturna, mas nada mais que isso e nunca por muito tempo. Estava demasiado absorta na minha nova vida, mais independente, na qual tomava as minhas próprias decisões. Passava os meus dias no curso, envolta em arte e à noite passeando pelas ruas daquela grande metrópole, acompanhada pelo meu principe. Aos seus olhos tudo era arte, através dele conseguia ver o mundo com outra forma e outra cor. Planeávamos o nosso futuro minuciosamente, começando pelo último dia de curso e terminando na cadeira de baloiço, já velhinhos com dentadura, rodeados pelos inúmeros netinhos que iriamos ter. Era bonito fazer planos com ele, imaginar como seriam os nossos meninos, morenos de olhos azuis ou verdes. Um misto de duas culturas tão distintas, um calor português contrastando com uma educação londrina muito rigida.


 

No entanto, eu sabia. Um dia voltaria a Portugal e aí tudo seria diferente, tudo mudaria. Sabia-me sonhadora, mas hesitante na altura de tomar decisões. E não podia evitar o pensamento. O pensamento ocasional levava-me àquela réstia de esperança. Àquele sonho, o futuro idealizado com o primeiro grande amor. Não permitia que nada o igualasse. Talvez por isso hoje em dia, sofra um pouco as consequências de ter sido tão esquiva. Hoje em dia, o intratável é o Joaquim, tornou-se em quem evita o conflito directo, ignorando os meus sentimentos e queixas. Não o amo menos por isso, no fundo porque sinto que é este o meu karma, o preço a pagar pelo que lhe fiz. Não ignoro a impossibilidade de viver a vida carregando culpas, mas acredito que as coisas mudam. Com paciência e amor, transformamos as pessoas. Tal qual o Matthew fez comigo.


 

Após mais de 6 meses de namoro, decidi comunicar aos meus pais que estava com o Matt e que iriamos passar férias a Lisboa. O choque do outro lado do telefone só se fez sentir da parte da minha mãe, o meu pai demonstrou uma felicidade desmedida. Afinal ele era um rapaz culto, inteligente e iria ter um emprego de sucesso. Sentia que a sua filha estaria bem entregue, ao contrário de com o Joaquim, que ele descrevia “não ter onde cair morto”. Combinámos tudo para Fevereiro.


 

Era a dura prova da minha vida. E se encarasse com o Joaquim numa noite passeando pelo Bairro?


 


 

Ass: Rosa

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escrito por reversivel às 00:05
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3 comentários:
De alexiaa a 5 de Agosto de 2007 às 20:25
Pois...a vida não para mas não ha como evitar a certeza que em algum momento do futuro vamos paralizar com fantasmas do passado:)

Boa semana!
De Carolina a 6 de Agosto de 2007 às 00:35
Ahh brutal! um dos melhores post que tenho aqui lido! A última frase... tou mesmo a vê-la antes do pano cair no palco! Muito bom mesmo...parabens!
De sucedâneo a 6 de Agosto de 2007 às 17:05
já dizia a minha mãe: mais vale casar que andar nessa vida

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