Quinta-feira, 26 de Julho de 2007

Empecilho

Várias horas passaram até que finalmente reuni a coragem necessária para abrir a carta da Rosa. Estava receoso do conteúdo da mesma, afinal de contas traria-me à memória episódios passados que, com grande esforço, tinham sido esquecidos. A carta mais não era do que um “olá, como estás?”, ainda assim não me deixou indiferente. Passado um ano estava de novo em contacto com a Rosa e esta tinha-me pedido que lhe respondesse em memória dos bons tempos passados. Apesar destes serem muitos, tinha bem mais presente na memória o mal que passei após a separação, pelo que estava algo relutante para lhe responder. Decidi deixar para mais tarde a resposta.

 

 

 

Quando sai do quarto em direcção a sala para telefonar à Mafalda, a minha mãe perguntou-me que carta era aquela. Respondi-lhe dizendo que não era nada de especial, apenas a carta de um conhecido. A conversa ficou por aí, apesar de eu ter estranhado o facto da minha mãe não ter ligado ao nome na carta. Telefonei à Mafalda. O seu timbre de voz era especialmente afável ao telefone. Combinámos encontrarmo-nos nessa noite.

Fui para o quarto com o intuito de praticar guitarra mas a mera presença da carta não me deixava concentrar, por mais que me abstraísse, o meu subconsciente levava-me a considerá-la. Fui para a sala, onde assisti a uns programas de televisão e depois jantei.

 

 

 

 

            Eram 22h, estava a fumar o meu cigarro junto de um quiosque perto da casa da Mafalda quando esta saiu como combinado. Cumprimentou-me com dois beijos e seguimos caminho. A Mafalda estranhou-me a noite toda, disse-me que parecia algo distante até mesmo desinteressado. Pedi-lhe desculpas e que me acompanhasse para outro sítio onde pudéssemos falar a sós. Expliquei-lhe o que me acontecera nessa tarde, contei-lhe acerca da Rosa e da nossa relação. A Mafalda parecia não crer naquilo que lhe contava. Perguntou-me se ainda sentia o mesmo pela Rosa. Respondi-lhe com um sonoro, e algo orgulhoso, não. Já havia passado um ano e toda a poeira já havia assentado, para mim já não haviam assuntos pendentes. Contudo estava colocado numa situação algo complicada, apesar de estar consciente de que não havia nada, algo me incomodava, pelo que teria de responder à carta de forma a acabar com esse desassossego.

 

 

 

Do olhar da Mafalda consegui retirar alguma apreensão. Certamente não estaria à espera que o rapaz, que recentemente a tinha começado a cortejar e pelo qual se sentia atraída, tivesse um historial daqueles. Garanti-lhe de que não se passava nada, somente precisava de responder quanto antes à carta de forma a voltar à normalidade. Levei a Mafalda a casa e enquanto me dirigia para a minha ia engendrando a minha resposta.

 

 

 

Quando cheguei a casa os meus pais já dormiam, pelo que a casa estava em absoluto silêncio. Era a melhor altura para responder à carta uma vez que estaria a sós com os meus pensamentos. Nesta, contei-lhe das minhas experiências por Lisboa, da descoberta do bairro alto, das pessoas que havia conhecido, dos projectos que havia iniciado. Não consegui deixar de imaginar a reacção da Rosa quando acabasse de ler a carta, afinal na dela não havia nenhuma referência a relacionamentos, enquanto que a minha, praticamente vivia disso. De qualquer forma não me tinha de preocupar com isso, já não estava a tentar impressionar ninguém, além do que ao contar-lhe isto manteria a distância que queria. Era como que um capricho malicioso e necessário.

 

 

 

 

Terminei a carta de forma algo fria desejando-lhe apenas a melhor das sortes para o restante do seu curso, tentando com isso dar a entender que não queria mais ter notícias suas. No dia seguinte enviei a carta na esperança de que a Rosa entendesse as mensagens subliminares que dela constavam. De resto neste momento já tinha outra coisa na cabeça, a Mafalda, que ainda agora tinha começado a conhecer e pela qual já estava apanhado.

 

 

 

Nem sempre as falhas de comunicação são nocivas. A não ter existido uma relativamente à minha carta por parte da Rosa, não sei em que posição estaríamos hoje em dia.


 


 


 

Ass: Quim

 

sinto-me:
música: Jurassic 5 - Thin Line (feat. Nelly Furtado)
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escrito por reversivel às 19:18
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2 comentários:
De CARPE DIEM a 27 de Julho de 2007 às 10:47
Apenas para dizer que acabei de ter uma leitura muito agradável . Quanto às relações que terminam, que começam ou recomeçam ou definitivamente se encerram, há sempre um ponto de interrogação sobre se determinado acto, gesto , atitude em determinado momento, mudaria o rumo das mesmas... sempre assim foi, sempre assim será
De Carolina a 1 de Agosto de 2007 às 19:03
Eu cá não tinha respondido... a ver se a Rosa se mancava e continuava a distância. Agora, com a resposta da carta não sei não... acho que ela não vai perceber bem a cena :p

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