Domingo, 22 de Julho de 2007

A carta

Acordo com a Brigida dizendo-me “Calma Rosa, calma! É só um pesadelo”. Estava lavada em lágrimas e em suor. Segundo ela, debatia-me há uns segundos, gritando em plenos pulmões algumas palavras em português. Abracei-me a ela em agonia. Tinha sonhado com o Joaquim, que voltava a Portugal e que este me tinha desprezado, dirigindo-me palavras de rejeição. Estava completamente devastada. Pedi desculpas à minha amiga, ao que ela me respondeu “devias reconciliar-te com o teu passado, vejo-te demasiado perturbada”.

 

Ela deitou-se e eu permaneci acordada, a pensar no seu bom conselho. Sentei-me à secretária e comecei a escrever uma carta dirigida ao Joaquim. Decidi que, um ano após ter partido de Lisboa, à qual não regressei por opção própria, deveria escrever-lhe algumas palavras. Afinal, não falava com ele desde essa altura e a nossa última conversa havia sido mais que dolorosa. Soube pelo primo João que ele tinha ido ao aeroporto, mas eu já havia embarcado. Foi melhor assim. Um último adeus seria o passaporte para não colocar os pés no avião e permanecer em Lisboa, indo assim contra todos os planos do meu pai e despoletando em si uma reacção que nem me atrevo a imaginar.

 

Um ano depois ali estava eu, escrevendo-lhe à trémula luz de um candeeiro que tinha comprado numa loja de antiguidades. Comecei vezes sem conta, pois as minhas palavras não me pareciam nunca suficientes e até um pouco descabidas e desprovidas de qualquer sentimento. Seria mais fácil telefonar-lhe, mas a falta de dinheiro não mo permitia. Teria que ser assim, tentaria ser o mais fiel a mim mesma e imprimir naquele pedaço de papel, todo o sentimento que ainda me restava por ele. Contei-lhe acerca da adaptação, de como estava a ser a absorção de toda a informação, a experiência, a modernidade da cidade onde vivia, aquela nova e estranha cultura. Ainda que fossemos todos europeus, Portugal era um país mais acolhedor, mais quente, mais rico no calor humano. A familia era algo essencial, e o ambiente era distinto daquele em que vivia agora. Falei-lhe de como se respirava arte em todos os cantos, dos mercadinhos, das tendas de comida na rua, das várias pessoas das mais diversas nacionalidades com quem tinha oportunidade de contactar todos os dias. Para mim essa era a verdadeira riqueza de Londres, a diversidade cultural e de como essa mistura estava a criar uma cultural geral, com uma pitada de todas as outras.

 

Falei-lhe da Brigida, das nossas aventuras, noitadas, do curso. De como estava a aperfeiçoar o meu inglês e de como pouco a pouco ia aprendendo italiano, por influência da minha colega de quarto. Descrevi-lhe uma experiência magnifica, que até eu gostava de ter vivido. Não quis falar-lhe das saudades, nem das noites tristes, muito menos das lágrimas. Não queria afligi-lo. Também não mencionei o meu envolvimento com o Matt. Por mais que ele pudesse ter ultrapassado a nossa relação, sabia que isso o iria magoar, pois ao colocar-me na sua posição, sei o quanto isso me magoaria a mim. Perguntei-lhe como estavam as coisas em Portugal e que fazia agora da sua vida. Pedi-lhe que me escrevesse a dar noticias, que nada me faria mais feliz que poder retomar o contacto com ele. Em nome de todas as coisas boas que tinhamos passado e que eu jamais esqueceria.

 

Após terminar a carta, senti-me tentada a rasgá-la, pois parecia-me um tanto cheia de ilusões, pouco fiel à minha realidade. Pensei também que pudesse trazer-lhe alguma raiva ou desilusão, pois o custo da minha experiência foi o final da nossa relação e do nosso sonho de nos unirmos para toda a vida. Apercebi-me do caos que causei na sua vida e senti-me injustiçá-lo ao escrever-lhe esta carta, numa tentativa de desenterrar sentimentos antigos. Que direito tinha eu de lhe dizer que sentia a sua falta? Estava com outra pessoa e ainda mais dois anos em Londres. Guardei a carta e decidi aconselhar-me com a Brigida na manhã seguinte, afinal duas cabeças sempre pensaram melhor que uma apenas.

 

Quando estava nos correios, ainda hesitei, mas a Brigida pegou-me no braço e atirou a carta para dentro da caixa. Já não havia volta a dar. Agora só me restava esperar ansiosamente pela carta do Joaquim e por sorver as suas palavras uma a uma. Fossem elas de amor ou de ódio. Tive medo, obviamente, mas com o passar dos dias fui perdendo até a esperança de ter resposta à carta. Quase desesperei.....

 

 

Hoje em dia, ao auto-avaliar-me concluo que foi, sem sombra de dúvidas, a melhor atitude que alguma vez tomei em toda a minha vida. Sem aquela carta, aquelas palavras, arriscar-me-ia a perder o grande amor da minha vida......

 

 

Ass: Rosa

 

 

 

sinto-me:
música: Mafalda Veiga e João Pedro Pais - Lado a lado
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escrito por reversivel às 01:45
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4 comentários:
De Carolina a 22 de Julho de 2007 às 20:16
Também não sei se teria tido coragem de enviar a carta... ainda bem k a Rosa a enviou! Viva o amor! E o resto é conversa...
De alexiaa a 22 de Julho de 2007 às 23:51
Passar os olhos pelos destaques é sem duvida um optimo truque para descobrir blogs curiosos. As vezes nem com cartas evitamos perder...o texto prende-nos duma forma fantastica, e logo eu que tenho dificuldades de concentração:)
De robbiewilliams1023 a 23 de Julho de 2007 às 20:39
Adorei..
O texto está lindo.....

Devias ser uma escritora..
Tens muito geito.

Obrigada por passares no meu.. =)
De aquele que não se identifica a 31 de Julho de 2007 às 22:24
A carta ainda é de facto um bom meio de comunicação. Então quando são de amor.. valem o que queremos que valham. Para mim valem muito.
Gostei muito que li!
Parabéns,
Isa

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