Terça-feira, 17 de Julho de 2007

U rock my world

Depois das experiências que o bairro alto trouxera à minha vida, esta tornara-se um tanto ou quanto mais pacata. Já não tinha uma necessidade exacerbada de destruição do meu ser. A convivência comigo próprio estava algo mais fácil. As manhãs em frente ao espelho já traziam consigo um novo augúrio de esperança. O estranho sentimento de desgraça que nessa hora era habitual já se havia dissipado, em grande parte porque a memória da Rosa não passava disso, uma simples memória. Já não condicionava os meus dias, a minha forma de agir. Era algo que fazia parte da minha história, com a qual já estava conformado.

 

 

 

A minha relação de amizade com o João mantinha-se inabalável. Neste momento era o único confidente que tinha. Era com ele que eu partilhava os meus projectos. Um deles foi começar uma nova vida, como que se de uma resolução de ano novo se tratasse. Comecei a trabalhar numa loja de discos. Sempre fora muito ligado à música e agora poderia trabalhar na sua presença e com ela. Foi uma fase da minha vida particularmente tranquila, uma vez que tinha uma vida que não permitia a existência de excessos. Voltara a atinar. Ia de casa para o trabalho, onde passava uma agradáveis horas sempre embalado pelas melhores músicas, regressando mais tarde para casa onde conversava com os meus pais, para posteriormente ir ter com os meus amigos. Este tipo de existência tinha mais que ver comigo, não me desgastava, aperfeiçoava-me.

 

 

 

Aos fins-de-semana lá saia com os meus amigos, numa busca incessante pelo sítio dos nossos sonhos. Acabámos por descobrir um bar de jazz com o qual nos identificávamos bastante. Aí passamos bastantes horas por entre o fumo e o som característicos deste tipo de casas. Assistíamos a verdadeiras demonstrações de simbiose de artistas com os seus instrumentos e isso era algo que me fascinava. Aproveitei nessa altura para aprender a tocar guitarra. Não era um interesse que tinha desde miúdo, mas era dos interesses mais fortes que agora tinha, e como o dinheiro que recebia do trabalho dava para ajudar em casa e para as minhas despesas, decidi aplicá-lo também em aulas de música. Foi uma oportunidade para fazer novos conhecimentos, uma vez que estava numa turma bastante recheada. Foi lá que conheci a Mafalda. Já a tinha visto na loja de discos, mas a nossa conversa cingiu-se ao estritamente necessário entre um empregado e um cliente, contudo não deixei de reparar no seu sorriso. Agora tinha-a diante de mim de novo, e desta vez com um pretexto para meter conversa.

 

 

Perguntei-lhe se se recordava de mim. Ela com um sorriso que parecia esconder algo disse que não. Retorqui dizendo que não tinha importância e que me chamava Joaquim. A conversa desenrolou-se depois da aula pois não queria estar a gastar o meu dinheiro para não tirar qualquer proveito das mesmas. A Mafalda era dois anos mais velha que eu, morena com uns grandes olhos castanhos e um sorriso que não deixava ninguém indiferente. Falámos sobretudo sobre música, era o maior interesse que tínhamos em comum. Ela deu-me a descobrir novas sonoridades que até então me eram completamente desconhecidas, quer por falta de informação ou falta de interesse. Descobri que a Mafalda se tinha mudado há pouco tempo para Lisboa e que tinha vindo de Braga, pelo que não tinha muitos amigos por cá. Desafiei-a para nos acompanhar no próximo fim-de-semana ao bar de jazz onde costumávamos ir. Apesar de apresentar reservas ao início, consegui convencê-la, dizendo-lhe que era uma óptima oportunidade para conhecer pessoal da mesma idade e ao mesmo tempo ouvir boa música.

 

 

Chegado o fim-de-semana encontrámo-nos a seguir ao jantar. Apresentei-lhe os meus amigos e o bar. Durante toda a noite não consegui prestar atenção à música tal era a forma como estava absorto pelas palavras e voz da minha mais recente amizade. Foi uma noite bastante agradável para os dois, já que no fim da noite ela me agradeceu por a ter tirado de casa. Ainda para mais tinha gostado de conhecer os meus amigos, tinha-os como boas pessoas. Despedimo-nos e cada um seguiu o seu caminho.

 

 

Na segunda-feira seguinte, passou pela loja para novamente me agradecer e me perguntar quando haveria outra noite daquelas, pois era mesmo o que estava a precisar na sua vida. Disse-lhe que sempre que quisesse tal noite poderia repetir-se. Sorrindo perguntou-me se seria possível lá ir, só que desta vez somente nós os dois. Fiquei algo atrapalhado. Senti-me corar. Respondi-lhe afirmativamente. Saiu da loja porque tinha coisas para fazer mas deixou-me o seu número de telefone para que depois conversássemos.

 

 

Quando sai do trabalho só tinha uma coisa em mente, chegar quanto antes a casa para telefonar a Mafalda. Ao chegar a casa cumprimentei os meus pais e a minha mãe informou-me que tinha recebido uma carta em meu nome que tinha posto em cima da minha cama. Estranhei tal coisa pois não estava nada a espera de receber uma carta, mas suspeitava de quem fosse. Tais suspeitas confirmaram-se assim que entrei no quarto. A carta era da Rosa…

 

 

 

Parece que sempre que conseguimos alcançar alguma estabilidade na nossa vida, aparece algo que, repentinamente, teima em destroçar o que erigimos.  

 

sinto-me:
música: Good Thing - Reel Big Fish
marcadores:
escrito por reversivel às 19:35
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8 comentários:
De Carolina a 18 de Julho de 2007 às 20:03
Continuo a sentir-me envolvida cada vez que vejo cá cuscar os vossos episódios recambulescos... Continuem porque eu vou continuar a cá vir! :)

La Bohemia
De JoanaTorrado a 20 de Julho de 2007 às 10:26
Bom dia.

O Blog merece ser destacado. Aparece na Homepage do SAPO e aqui (http://blogs.sapo.pt/destaques.bml).

Parabéns e boa continuação :)
De L. a 20 de Julho de 2007 às 11:52
gostei do blog. bj :)
De sucedâneo a 20 de Julho de 2007 às 12:00
pois é, pois é...importante é que estejas seguro do que queres e do que não queres.
E lembra-te: quem tudo quer, tudo perde

Parabéns pelo destaque!

De Sapo a 20 de Julho de 2007 às 18:26
dahh, tas no destaque... festeja, pá! *croac*
De Cristiana a 20 de Julho de 2007 às 23:20
Um teimoso nunca teima sozinho... Todos nó temos a capacidade de teimar tanto ou mais do que teimam connosco. E mais ainda se teimam em destruir o que construímos e sabemos querer. Se algo teima contigo, sê teimoso o suficiente para lhe fazeres frente :-)
De Lara a 21 de Julho de 2007 às 01:30
Gostei do blog
Continuem
De robbiewilliams1023 a 22 de Julho de 2007 às 01:16
Oi..
Está muito bom o teu blog..
Essa história é mesmo verdade???

=)

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