Quarta-feira, 11 de Julho de 2007

Ventos de mudança

A pouco e pouco a minha vida voltava ao normal. Por vezes, aqui e ali, havia qualquer coisa que me fazia recordar a Rosa, simplesmente já não lhe dava a importância de outrora. Tinha aprendido a viver com a situação, e em grande parte por influência da Mariana. Ela apresentou-me o bairro alto, repleto de diferentes bares que rapidamente se tornaram diversos ombros amigos para a minha taciturnidade. O Quim, moço responsável e atinadinho deixara de existir enquanto tal, estava agora mais preocupado em conhecer pessoas novas e passar por novas experiências. O bairro alto era então o melhor sítio para o renovado Quim deambular.




O alcoól e as drogas consumidas raramente tinham o efeito que pretendia, queria alhear-me de tudo e de todos, mas por mais que ingerisse não o conseguia fazer. Sentia à minha volta a atmosfera, bastante pesada, apoiar-se em mim, como se o peso da mera existência não bastasse. Invariavelmente, acabavam estas noites comigo, algures por Lisboa, acompanhado por alguém que havia conhecido já no pico da minha embriaguez, que nada tinha que ver comigo. Embora não o quisesse admitir, estar sozinho custava-me imenso. Estar sozinho era sinónimo de estar comigo e com os meus pensamentos e isso não me fazia nada bem.




Numa dessas noites no bairro, conheci a Mónica. Era diferente de todas as raparigas que tinha conhecido. Era filha de emigrantes, o que significa que grande parte da sua vida havia sido vivida no estrangeiro, tendo dele bebido influências e experiências que eram abjectas ao nosso país. Tinha uma mentalidade aberta a vários níveis sendo que tinha uma grande ligação com as artes. Ainda para mais falava com um sotaque que me fascinava particularmente. Qualquer conversa que tivesse com a Mónica, por muito banal que fosse acabava sempre por resvalar para os assuntos realmente importantes: a vida, a morte, o amor, etc…




Passávamos horas na companhia um do outro e do álcool. Nesta altura ingeri-lo já se havia tornado quase que uma necessidade física. Não gostava de mim sem ele, porque sem ele, era eu outra vez. Quis romper com o passado. Deixei de falar a maioria dos meus amigos à excepção do João, mas esse também sempre teria um lugar especial no meu mundo de afectos. Os meus pais estranhavam-me, perguntavam-me o que se passava e, como se não tivesse de dar explicações, levantava-me e saía de casa. Por muito grande que fosse o esforço dos meus pais perceberem o que se passava comigo, a minha teimosia em não revelá-lo era bem maior.  




A Mónica era, então, o meu escape da realidade, era através das suas histórias que eu vivia, era através dos seus sonhos que eu sonhava, era através dos seus lábios que eu sentia. Não havíamos feito promessas de amor um ao outro, estávamos juntos porque sim, e assim que deixasse de fazer sentido iríamos, tranquilamente, cada um para seu lado. Durante este período, comecei a trabalhar e o meu trabalho não podia ser melhor. Estava num dos meus bares favoritos a trabalhar como barman. Foram muitas as caras que conheci. Falo de caras porque o resto da pessoa em si não me interessava, esses seres noctívagos eram todos feitos com o mesmo molde, não me traziam nada de novo. Todas as minhas pausas eram passadas à porta do bar na esperança de que acontecesse algo, de que passasse alguém, não algo como os que entravam. Olhava para eles e revia-me, olhava para a Mónica e via a Rosa. Não como ela foi, mas como poderia voltar. Achei que era o momento certo para abandonar aquele estilo de vida. O que tinha de ser experimentado já o havia sido e não me tinha agradado. No dia seguinte pedi desculpa aos meus pais. Eles não perceberam porquê, mas eu disse que também já não importava porque eram coisas do passado…







O método de tentativa e erro continua a ser um bom método de aprendizagem, o problema costuma ser o de o erro nos perseguir mesmo depois da lição aprendida.

 


 


 


 

Ass: QUIM

sinto-me: tranquilo
música: Editors - Smokers Outside the Hospital Doors
marcadores:
escrito por reversivel às 19:33
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1 comentário:
De reversivel a 14 de Julho de 2007 às 13:37
Como se costuma dizer, "fechaste em chave de ouro". Perfeito!

Beijo,

Lena

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