Quarta-feira, 23 de Maio de 2007

Após a tempestade, virá calmaria?

Após a revelação catastrófica do meu pai, restava-me apenas apanhar os cacos, levantar a cabeça e seguir os seus desígnios. Ainda assim, precisei de passar algum tempo sozinha, para reflectir no que o futuro me apresentava. Afinal, sempre havia desejado estudar Belas Artes em Londres, mas a verdade é que desde que o Joaquim surgira na minha vida novamente, tinha deixado até de pensar nisso.

 

Passámos uma semana separados a meu pedido, algo que assustou muito o Joaquim e a mim também. Assustou-me, pois pensei ser incapaz de alguma vez passar mais do que um ou dois dias sem o ver. Na verdade aquela resposta do meu pai tinha feito muita coisa mudar. O Joaquim pediu-me que não tomasse qualquer medida drástica sem conversarmos primeiro, estavamos noivos e ele não ia desistir do casamento apenas por três anos em Londres a estudar. Na altura pensei que ele era louco ou louco era o amor que ele sentia por mim, mas fez-me bem essa loucura. A sua faceta de sonhador corajoso, que jamais desiste de alcançar aquilo a que se propõe, mesmo que tenha que enfrentar os mais dificeis obstáculos, fazia-me bem. Era demasiado racional, tentava pôr sempre tudo preto no branco e, por isso, vivia até um pouco insatisfeita com a vida, inconformada. O Joaquim vivia nas nuvens, os seus pés raramente tocavam o chão. Era um idealista, um lutador. Acreditava na sua força interior, dava-me força, completava-me.

 

            Tanto pensei, tanto me passou pela cabeça. Finalmente concluí que aquela era a forma preversa de o meu pai me proteger. Provavelmente, não queria que eu cometesse os mesmos erros que ele havia cometido. Casou novo, não estudou. Ao ver que isso poderia vir a acontecer-me, arranjou maneira de o evitar. Na altura, enchi-me de raiva por ele, tratei-o mal, odiei-o secretamente cada noite passada a chorar. Agora consigo entendê-lo e até agradecer por essa experiência única que me proporcionou. Cada quadro que pintei, cada fotografia que tirei, só o devo a ele.

 

            Ao reencontrar-me com o Joaquim findada uma semana, vi-o ficar atónito a cada palavra que proferi. Recusava-me a manter uma relação em stand-by, em “vamos ver se aguentamos”. Amava-o com cada pedaço do meu corpo, como se cada um dos meus poros o respirasse, mas tive que terminar. Não o fiz de ânimo leve, hoje em dia nem sei como consegui fazê-lo, mas ainda bem que o fiz. Deixá-lo naquele momento, era a atitude que me parecia mais plausível. Não queria que ele esperasse por mim, essencialmente porque não poderia garantir-lhe que esperaria por ele.Afinal, já tinha esperado quase toda a minha vida. Deixei-me convencer pelo meu pai de que estava a fazer o melhor para mim, de que ao voltar já nada seria como antes.

 

Por entre soluços, lágrimas, pedidos, exclamações de descontentamento, um último beijo, virei costas e afastei-me dele. Subitamente, virei-me e gritei-lhe “VOU AMAR-TE COMO SEMPRE!”. Corri o mais rápido que pude, o mais rápido que as minhas pernas permitiram. Corri até casa daquele que era o meu melhor amigo, quem tinha sempre tempo para as minhas palavras, o meu primo João. Consoante este me abriu a porta, caí nos seus braços. Ele já sabia de tudo o que se tinha passado. Tinha falado com o Joaquim pelo telefone. Disse-me que este estava devastado, não acreditava no que se tinha passado. Estava desesperado, afirmando que ia “roubar-me” aos meus pais, que fugiriamos juntos. Meu pobre amor! No fundo ele sabia que nada havia a fazer. Apesar de todo o sofrimento, o João conseguiu encorajar-me a enfrentar aquela nova fase da minha vida. Fez-me compreender as vantagens de estar longe, mostrou-me o quanto aquela experiência poderia ser enriquecedora. Disse-me para acreditar nos laços que me uniam ao meu amado, pois algo tão sincero não se desvanece com o tempo, nem com distância. No momento, acreditei em tudo o que ele me disse, queria encher-me daquela réstia de esperança. Assim nem tudo pareceria um pesadelo.

 

            Talvez hoje em dia estejamos a precisar de um time out, mas com três filhos não tenho tempo para estudar no estrangeiro, nem um pai que me faça ir....

 

 

 

 

 

 

 

            Ass: Rosa

sinto-me: desamparada
música: but... i can - fingertips
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escrito por reversivel às 04:10
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2 comentários:
De Marta Duarte a 25 de Maio de 2007 às 21:15
Só vim aqui para dizer que estou a gostar muito da história, fico à espera de mais!!!!! Bjnhs!!!!
De Cláudia Oliveira a 28 de Maio de 2007 às 18:41

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