Segunda-feira, 16 de Abril de 2007

O rumo natural

Finalmente tínhamos a nossa relação perfeitamente assumida, já não era preciso namorar às escondidas de ninguém. Tinha o consentimento do seu pai, e isso na altura ainda era tido em conta. Não fora o meu ímpeto e ainda hoje namoraríamos na clandestinidade, coisa que para mim já não funcionava. Todo o meu ser ansiava pelo contacto e presença da Rosa. Um dia que passasse sem ela era um dia que não quereria recordar tão cedo. A angústia de saber a priori que não poderia estar com ela sufocava-me, sugava-me anos de vida. Contudo já não tinha de me preocupar com essas coisas. Éramos um do outro incondicionalmente. Éramos um do outro e só depois haviam os outros.

 

Desde então a nossa relação havia evoluído muito. Os nossos encontros passaram de diurnos para nocturnos. Levava-a para jantar, ao cinema e às vezes ao teatro. Apesar de não ter prosseguido os estudos, fazia os possíveis por me cultivar, e se o pudesse fazer juntamente com a Rosa, melhor ainda. Era a minha companheira de tertúlias, discutíamos amenamente tudo o que perante nós se atravessava. Estávamos numa perfeita sintonia. Afinal de contas já não éramos crianças nenhumas e, ainda para mais, tínhamos um projecto comum, um futuro a dois.

 

Os meses foram passando e a confiança que os pais da Rosa tinham por mim fortalecera-se. Já me era permitido que, na ausência deles, passasse o fim-de-semana em casa deles. Esta permissão havia-me espantado um pouco dada a mentalidade conservadora do seu pai. Decerto seria a influência feminina daquela casa que me havia concedido tal benesse.

 

As tardes eram passadas, ora passeando pela praia, ora pelos jardins da cidade. Para mim a vida nunca fizera muito sentido longe da natureza. Não havia nada como contemplar a beleza da Rosa, tendo paisagens naturais como pano de fundo. Já as noites eram passadas no conforto da casa conversando sobre tudo sem qualquer objectivo que não o da companhia um do outro. Chegávamos a conseguir comunicar apenas por olhares, retirando toda a importância de que as altivas palavras se arrogam.

 

Já nos conhecíamos como se toda a nossa vida tivéssemos convivido intimamente. Sabíamos como o outro reagiria a determinado impulso. Já não tínhamos segredos, éramos como livros abertos, desprotegidos na confiança cega que sentíamos um pelo outro. Ainda assim, por várias vezes consegui surpreender a Rosa, com demonstrações do amor que sentia por ela. Tanto por palavras como por gestos.

 

 

 

Quão bom seria se hoje me apetecesse gritar em plenos pulmões perante todos o que sinto por ela. Com a idade perde-se coragem, perde-se jovialidade, perdem-se tantas coisas.


 

Ass: Quim

sinto-me: Impulsivo
música: Dealing With The Devil - James Cotton
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escrito por reversivel às 02:31
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1 comentário:
De Daniela a 17 de Abril de 2007 às 10:17
Fica só o comment para dizer "estive aqui".

Estou a gostar muito desta historia escrita, parece-me, a quatro mãos!

para quando um café?!

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