Domingo, 4 de Março de 2007

Aquela noite

Numa noite quente de verão, fui até casa do primo João. Era o dia do seu aniversário, um grande jantar de amigos. Eu sabia que ele ia estar lá, pois já havia extraído, subtilmente, essa informação ao meu primo. Estava algo nervosa, mas confiei na minha simpatia e no facto de sermos amigos de infância. Vesti o meu vestido mais bonito, um verde seco que combinava com a cor dos meus olhos. Perfumei-me com uma colónia suave.


Cheguei cedo, a tempo de dar uma mãozinha na cozinha. Sempre adorei cozinhar, e as sobremesas eram a minha especialidade. Apesar disso, a balança não marcava muito cada vez que me pesava. Era mulher e, no meu tempo, o que aprendiamos de útil era cozinhar, passar, lavar. Todas as obrigações da mulher em casa. Emancipação era palavra apenas utilizada para gente rica, os pobres mantinham os seus costumes.


Os convidados foram chegando, um após outro e a tensão aumentava. Perguntava-me o que se estaria a passar com ele para estar tão atrasado. Entretanto, fui abordada por um amigo do João. Muito simpático por sinal, trabalhador, responsável. Se a minha mãe estivesse ali, beliscava-me dizendo que era um bom partido. Quanto mais cedo eu casasse, melhor. Seria menos uma boca a alimentar. Afinal já tinha 16 anos e nunca tinha namorado, os meus pais começavam a estranhar.


A conversa com o Manuel continuou, ele era muito culto e viajado. As suas histórias deixaram-me de tal modo envolvida, que nem dei conta da campaínha tocar. Só reparei na sua presença, quando o João me tocou dizendo “Rosa, lembras-te do Joaquim?”.


Olhei-o. Tinha-se tornado um homem bonito. Era alto, encorpado e mantinha o seu sorriso meigo e alegre. Parecia-me um pouco constrangido com a situação e também eu o estava. Não o via há anos e agora já eramos quase adultos. Nunca lhe contei da secreta paixão que tinha por ele, sempre pensei que era uma coisa de miúdos, mas agora ali estava ele, diante dos meus olhos.


Falámos durante horas. Ele fez questão de se sentar a meu lado durante o jantar. O Joaquim não era viajado como o Manuel, nem tão culto, mas era humilde, simpático e divertido. Fazia-me rir com gosto.


Com algum esforço, consegui convencer o João a levá-lo a casa. Não só o fez, como combinou um passeio no dia seguinte. O meu primo conhecia-me melhor do que ninguém, não foram precisas palavras para que ele percebesse que algo tinha acontecido ali. Quando voltámos para casa pediu-me que o acordasse na manhã seguinte. Assim o fiz. Quando cheguei ao seu quarto, disse-me que estava indisposto. Pediu-me que recebesse o Joaquim e lhe fizesse companhia no passeio, ao que acrescentou um sorriso malicioso. Fingi não perceber e também não demonstrei que estava contente pela sua falsa indisposição.


Fomos passear a um parque ali do bairro. Uma vez mais, o Joaquim era um comediante nato e apesar dos assuntos serem algo vazios, a tarde passou rapidamente e de forma mais que agradável.


Repetimos estes nossos encontros cada fim-de-semana daquele verão. Variando nos locais e actividades. Descobri que além de companhia, o Joaquim era um óptimo companheiro para mim. Mostrou-me mais do que alguma vez tinha visto ou experienciado, tratou-me como se fosse a única no mundo. Mostrou-se meigo, carinhoso, leal, apaixonado. Tudo aquilo que eu poderia desejar. No final do verão, já namoravamos. Hoje em dia, cada vez que me encontro com o meu primo, recordo-me de como tudo aconteceu e fico tentada a agradecer-lhe. Apesar de tudo e do quanto mudou, um dia o Joaquim foi um bom marido.


Ass: Rosa Trindade

sinto-me: enganada
música: the used - blue and yellow
escrito por reversivel às 16:31
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2 comentários:
De Sousa a 4 de Março de 2007 às 17:52
Boa personagem...história vaga que deixa ao leitor uma imensa liberdade para imaginação!

Porque acabaste com uma frase no passado??
Conheces a história da visão prismática?

Sousa
De Cobain a 11 de Março de 2007 às 23:22
Quando a "flor" masculina abre, só pode ser mesmo o sol...
desculpem la a metáfora... mas tinha de ser:P

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